Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um sujeito perguntador


As sobrancelhas grossas e os olhos diminutos de João Miguel marcaram de diversas maneiras o cinema brasileiro: ele foi Ranulpho, um sertanejo turrão em Cinema, Aspirinas e Urubus; João, o ex-namorado da prostituta Hermila em O Céu de Suely; Raimundo Nonato, migrante nordestino que vira cozinheiro em Estômago; e um pai violento em Mutum.

Nascido em Salvador, com passagens pelo Rio de Janeiro e João Pessoa antes de radicar-se em São Paulo, Miguel representa com a mesma graça e verdade as agruras do homem do sertão ou da metrópole. “Acredito em um cinema humanista e em um teatro que possam trazer à tona questões que tenham a ver com o nosso tempo”, diz.

Nas artes cênicas, se destacou como o palhaço Magal (criado em 1989, sob orientação de Luiz Carlos Vasconcelos) e, principalmente, como Arthur Bispo do Rosário, no monólogo Bispo, dirigido por Edgard Navarro, que percorreu o Brasil durante cinco anos, e que lhe valeu o convite para protagonizar o primeiro longa-metragem, Cinema, Aspirinas e Urubus, em 2005.

Este ano, Miguel completa três décadas de uma carreira iniciada aos 9 anos de idade. Formado ator em 1989, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, viveu dois anos na Paraíba, como integrante do Grupo Piolim. Sobre essa experiência, está escrevendo o roteiro do filme que pretende dirigir em breve.

Foi também na Paraíba que conheceu o Lume Teatro, de Campinas, que o convidou para falar sobre o ator no cinema, no dia 9 de fevereiro, uma segunda-feira, em debate dentro do projeto Terra Lume. Antes, o ator recebeu a reportagem para o bate-papo a seguir:

Foi depois do monólogo Bispo que você recebeu o convite do diretor Marcelo Gomes para atuar em Cinema, Aspirinas e Urubus, que lhe deu o primeiro prêmio como ator. Você deve isso à sua trajetória no teatro?

João Miguel — Eu cheguei a fazer cinema com a mesma paixão que eu fazia teatro, me adaptando no fazer com a diferença da linguagem. Acho que a paixão é fundamental. O Marcelo Gomes viu isso. Tive oportunidade de fazer um cinema mais autoral, um cinema parecido com o teatro que eu fazia. Eu pude colaborar, questionar. A figura do ator não estava tão amarrada ao personagem. Tive a possibilidade de recontar, de colocar o texto na minha boca. Sempre trabalhei com diretores que tinham essa marca. Eu venho do teatro de indagação, de investigação dentro do trabalho do ator e de apaixonamento sobre o personagem. Eu fiz o espetáculo do Bispo durante cinco anos. Foi um divisor de águas muito importante.

O ator vindo do cinema pode fazer teatro tão bem quanto no cinema?

Uma coisa que eu evito na vida é o rótulo, a catalogação, então, eu acho que não tem uma regra para nada. É possível tudo a partir da sua trajetória.

Estou perguntando isso porque o teatro depende muito do trabalho do ator, enquanto que o cinema, do diretor.

Isso não é uma verdade absoluta. O ator leva o seu registro para o cinema e aquilo vai imprimir muito porque a câmera pega tudo. Até o que você não quer mostrar. É óbvio que eu encaro o teatro como uma base, a minha base. Eu faço desde os 9 anos. Depois eu tive oportunidade de encontrar homens de teatro que são referências, como o (grupo) Lume, que te ajudam a buscar essa base, essa formação. Essa busca existiu durante muito tempo sem eu estar exposto para a mídia. Quando surgiu a oportunidade de fazer cinema, eu já tinha uma base construída.

Você acha que ter nascido e crescido em Salvador e depois vivido em João Pessoa te manteve um pouco afastado da mídia?

Talvez. Mas eu tenho tendência, sempre, mesmo morando em São Paulo, de me aquietar e fazer minhas perguntinhas, que são fundamentais.

Ao conhecer o Lume Teatro, em João Pessoa, você fez alguma oficina com os atores?

Fiz com o Ricardo Puccetti. Foi a primeira pessoa que conheci do Lume. É um ator que eu admiro profundamente. Admiro o grupo como um todo. O que significa Barão Geraldo também, dentro do Brasil. É muito sério esse movimento, mesmo sendo tão espontâneo. É um movimento feito por quem é apaixonado pelo ofício de ator.

Por causa do filme Estômago, muita gente passou a achar que você sabe cozinhar. O que você faz bem na cozinha?

Como (risos).

Quantos longas você fez?

Eu tenho 13 longas no currículo. Cinema, Aspirinas e Urubus foi meu primeiro filme. Depois teve Cidade Baixa (de Sérgio Machado); Eu Me Lembro, do Edgard Navarro; Mutum (de Sandra Kogut); Deserto Feliz (de Paulo Caldas); Estômago (de Marcos Jorge); Jardim das Folhas Sagradas, que não entrou em cartaz ainda, do Pola Ribeiro; Hotel Atlântico, da Suzana Amaral, que também ainda não entrou em cartaz; Se Nada Mais Der Certo (de José Eduardo Belmonte), que ganhou o Festival do Rio (de 2008) e Bonitinha Mas Ordinária, de Moacyr Góes (inédito).

Você tinha 9 anos quando começou a trabalhar como apresentador de um programa de televisão?

Comecei aos 9 anos com uma peça de teatro chamada A Viagem de um Barquinho. Foi aos 10 anos que eu apresentei um programa de televisão, que era dirigido por Nonato Freire, um tropicalista baiano.

Como surgiu a oportunidade?

Eu morava no prédio de uma atriz baiana maravilhosa, chamada Nilda Spencer, que morreu recentemente. Ela era amiga dos meus pais e o Nonato era amigo dela. Ela falou de mim para ele. Eu vivia pelos corredores do prédio vestindo personagens.

Qual era o nome do programa?

Chamava Bombom Show. Durou um ano. Era tão bom que durou pouco. Depois quiseram me contratar para o SBT. Eu não quis.

Você queria seguir no teatro?

Não, naquela época você não tem opinião tão formada. Só sabia que não queria uma coisa muito séria. E no programa eu me divertia muito.

Você entrevistou o Glauber Rocha e a experiência resultou em um episódio engraçado em que você diz a ele “que vai perguntar uma pergunta” e ele que vai lhe “responder uma resposta”.

É, e aí eu disse “Ih rapaz, fiz alguma coisa errada” e ele respondeu, “não, está tudo certo” (risos). Eu não me lembro nada de pergunta alguma. Só não me esqueço da figura dele. Muito forte. Entrevistei também a Irmã Dulce.

Em 2009 você completa 39 anos de idade. São 30 anos de carreira. Que balanço você faz?

Acho que nesses 30 anos teve também muito espaço para perguntas, para o tempo passar e eu nunca deixar de me exercitar. Eu tenho o ofício do teatro como um caminho mesmo, um espaço onde o ator pode existir. Hoje, eu acredito em um cinema humanista e em um teatro que possam trazer à tona questões que tenham a ver com o nosso tempo. Acho que tem uma espécie de coerência na minha caminhada. Tem um amigo meu que diz que você não pode plantar feijão e colher arroz. É muito legal poder dialogar com essa ideia de mercado mas também entender o que você quer dizer e como você pode contribuir.

Você conhece bem o sertão.

Mas eu também sou superurbano. Agora, a tendência é a de eu começar a fazer personagens mais urbanos.

Eu ia perguntar justamente se você não tinha receio de cair no estereótipo do migrante nordestino.

Tive, algum tempo, porque fui muito convidado só para fazer o sertanejo, o nordestino. Acabei de fazer Bonitinha Mas Ordinária, baseado na obra do Nelson Rodrigues, e é um personagem totalmente urbano, do Rio, com a Leandra Leal fazendo Bonitinha. No próprio Se Nada Mais Der Certo, que estará estreando em breve, eu faço um personagem urbano. Acho que no cinema brasileiro há uma tendência de dialogar com uma memória e uma atitude que tenham a ver com esse universo mais urbano, que me pertence também. Estou há seis anos em São Paulo.

Como é sua relação com Salvador?

É uma relação de muito amor. Sou muito agradecido à cidade, que me formou de alguma maneira. É uma cidade de rua, de negros, com uma herança africana muito forte. Uma cidade que tem muita festa de largo. A lógica da rua influencia muito meu trabalho. Sou muito observador. Construo personagens a partir da observação da realidade, de perceber onde que está aquele personagem no meu dia a dia. O cinema me dá oportunidade de viver pequenos exílios de interiores, de poder viajar e conhecer outros lugares que eu não conheceria se não fosse o cinema. De entrar em contato com o Brasil. Eu tenho sede de pensar o Brasil sem levantar bandeira, mas com um sentimento de pertencimento.

Mas você ainda toparia fazer personagens nordestinos?

Não tenho preconceito em relação ao Nordeste ou ao sertão. O problema é a catalogação que os outros fazem. Não vou deixar de fazer filmes com diretores que eu acredito, quando estão falando coisas que eu acredito. Agora eu vou fazer (o filme) A Hora e a Vez de Augusto Matraga (da obra de Guimarães Rosa, sob direção de Vinícius Coimbra), que fala do sertão, mas que é o Brasil e o mundo. Falar do sertão profundo é falar do Brasil.

Você morou dois anos na Paraíba. Por quê?

Fui para lá com o Grupo Piolim. Ficamos na tentativa de construir um novo espetáculo. Mas que foi genial, um período muito bom. Hoje eu escrevo o roteiro de um filme que vou dirigir que se baseou nesse período que fiquei lá. É um projeto de médio prazo. Estou escrevendo o roteiro com a Manoela Dias.

Virou uma tendência atores brasileiros dirigirem longas.

Assim como eu fiz o Bispo de uma maneira bastante autoral (pausa) eu tenho necessidade de dizer algo assim também no cinema.

Você vai relembrar os dois anos em que ficou em João Pessoa?

É uma história específica. Prefiro não contar muito, mas é baseada em coisas que eu vivi lá.

Teve um outro grupo na sua vida, Los Catedráticos.

Um grupo baiano. A gente fazia sátiras das músicas de axé music. Foi o maior sucesso. Eu fiquei um ano e meio no grupo. Tem alguns outros grupos que eu contribui, como o Cia Elétrica Fernando Guerreiro. Teve um grupo de formação que fez parte da minha adolescência, chamado Tantas e Tamanhas, com o qual eu fiz teatro educacional e viajei muito pelo interior.

Você tem projetos para a televisão?

Quase que eu ia fazer uma novela agora. Não rolou porque eu tinha compromisso com (A Hora e a Vez de Augusto) Matraga. Novela não é um veículo que me oponho a dialogar, é importante e popular e, querendo ou não, é um dos poucos veículos que para o ator funciona como indústria. Queria muito que o cinema virasse isso. Minissérie eu fiz várias. Foi o que mais fiz, como participações duas vezes em A Grande Família. É muito bom porque você tem oportunidade de exercitar a troca rápida com os atores e de ver bons atores de televisão em ação.

Quando você vai fazer 39 anos?

No dia 20 de março. Estou estreando uma peça no dia do meu aniversário. Se chama Só. É o segundo monólogo que faço depois de Bispo. Também fiquei muito tempo fazendo Magal, que é meu palhaço, sozinho. Então, acho que eu estou construindo alguma coisa para falar dessa solidão de hoje.

Alguma crise à vista, por estar próximo dos 40?

A crise é constante. Eu sou muito perguntador.

RÓTULO

“Não tenho preconceito em relação ao Nordeste ou ao sertão. O problema é a catalogação que os outros fazem.”

PALCO

“Tive oportunidade de encontrar homens de teatro que são referências, como o grupo Lume.”

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