Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ensina-me a viver


Quando a morte encontra a literatura, que histórias ela nos conta? Surpreendentemente, nos fala da vida e das coisas simples que demoramos a perceber como importantes. A contradição é que, apesar de fugirmos do assunto como o diabo da cruz, somos atraídos a ele por meio da literatura - talvez com o secreto desejo de aprender como se vive após uma grande perda.

O exemplo mais recente de literatura sobre o luto, no Brasil, vem da mineira Cristiana Guerra. Nascida em 1970, essa publicitária de Belo Horizonte transformou a perda do companheiro e pai do único filho no livro Para Francisco (Editora Arx/Saraiva, 192 páginas, R$ 29,90), lançado em novembro de 2008, como resultado do bem-sucedido blog homônimo (www.parafrancisco.blogspot.com
É para o filho, Francisco, que ela escreve. O filho que carregava no ventre havia seis meses quando o companheiro, Guilherme Fraga, morreu subitamente, aos 38 anos de idade, em 2007. Dois meses depois, no mesmo ano, ela ganhou o bebê. "Escrevi para não esquecer" , ressalta no texto que abre o livro. A estrutura da obra segue a do blog: é dividida por datas e reproduz fotos e imagens, e ainda traz as mensagens trocadas por e-mail entre o casal.

Ao tentar lidar com sentimentos antagônicos provocados pela dor da perda e a alegria do primeiro filho, Cristiana fez literatura, e de qualidade. "Eu acho que dor e literatura são grandes amigos. A gente escreve melhor no meio da tristeza" , reflete a autora na entrevista que concedeu ao Caderno C, por e-mail.

Com um texto poético e longe de ser pessimista, o livro não resvala na autoajuda, apesar de alertar, por exemplos da própria autora, sobre a importância de sentir a vida intensamente, até em pensamento, ao rememorar histórias saborosas - e algumas amargas - envolvendo pessoas queridas que se foram. A perda de Guilherme é o ponto de partida para Cristiana falar também dos pais e avós.

Mas, ao fugir da armadilha da autocomplacência, a autora cai em outra, preparada pelos leitores - do blog e do livro: muitos a celebram como uma supermãe e mulher, mas, como ela mesma avisa, "não é nada disso" . "Continuo sendo a mesma pessoa, com desafios semelhantes aos anteriores, um filho para criar sozinha e coisas normais da vida como momentos de medo e solidão, cansaço e desespero" .

Sim, a autora sofreu muitas perdas - durante o primeiro casamento, abortou duas vezes - e experimenta profundamente e publicamente o luto, mas é no presente e na alegria de viver que ela finca a sua literatura. Afinal, é para Francisco, o filho que está apenas no começo dessa linda, assustadora e breve viagem chamada vida, que ela escreve.

‘Queria gritar para o mundo sobre minha dor’

Autora fala sobre decisão de tornar público um sentimento íntimo e pessoal

Cristiana Guerra tem um jeito atrevido de encarar a vida. Com várias tatuagens pelo corpo, cabelo curtinho arrepiado e um figurino moderno - fruto de sua paixão por moda - ela não tem medo de expor seu modo de ser, vestir e pensar. Tanto, que mantém três blogs.

Além de Para Francisco, ela posta para Hoje Vou Assim (www.hojevouassim.blogspot.com), no qual ela revela, diariamente, a roupa que usa para ir trabalhar; e Filé Pra Quem é Mignon (filepramignon.blogspot.com), um bazar virtual com peças do seu guarda-roupa, para quem é miúda como ela.

Depois da publicação em livro do blog Para Francisco, ela agora enfrenta uma superexposição a que não estava acostumada, mas dá para notar, pelas últimas postagens e pelo tom da entrevista abaixo, que ela não perdeu a ternura.

Você começou a escrever as cartas em memória ao seu companheiro para um leitor em especial, seu filho, por que resolveu torná-las públicas?

Eu queria gritar para o mundo sobre a minha dor. Escrevia para o Francisco, sim, pois quando entendi que era pra ele que eu precisava escrever, uma parte da dor começou a se resolver em mim. Mas eu também precisava deixar essa experiência exposta, ao alcance de mais pessoas, embora eu achasse que ninguém ia descobrir os meus escritos, que talvez os amigos visitassem o blog e só. Sabe quando a gente quer gritar o que tá sentindo num lugar grande, onde o eco seja bem forte? Era mais ou menos isso. Eu não pensei, apenas fiz, sem pensar. Hoje, vejo que precisava dessa catarse.

Como você acha que foi possível a literatura nascer de uma dor tão aguda?

Eu acho que dor e literatura são grandes amigos. A gente escreve melhor no meio da tristeza. Mas não era só um momento de dor. Era um momento em que eu vivenciava muitas emoções intensas, simultaneamente. Emoções novas e de um significado absurdo na minha vida. Eu precisei escrever (e nem pensei estar fazendo literatura) para entender, para guardar, para dar conta dos sentimentos opostos (a perda do amor e o ganho do filho). Escrevi para que cada emoção tivesse o seu lugar, para que uma não engolisse a outra, pois as duas precisavam ser vivenciadas.

Que tipo de conforto a literatura tem lhe trazido?

Saber que consegui de alguma forma me expressar já é um grande conforto. Ler um texto produzido no meio desse turbilhão e descobrir que consegui me comunicar com outras pessoas, tocar alguém, é um alento e tanto. Eu acho que as palavras nunca vão ser suficientes para expressar o que sentimos. E isso é o mais bonito: a gente vai estar sempre tentando, e essas tentativas vão produzir textos tocantes, sensíveis, bem escritos ou, quem sabe, universais. A sensação de que consegui me comunicar com muitas pessoas através dessa literatura não tem preço.

Quais transformações o blog Para Francisco e sua publicação em livro fizeram em sua vida?

Em primeiro lugar, o blog e o livro foram a cura do meu luto. Graças ao blog (tendo o livro como fechamento simbólico de um ciclo) eu me expressei exaustivamente e não ficou nada para trás. Eu me resolvi escrevendo. Gastei a minha dor, literalmente. Sobrou a alegria de ter Francisco, e sobrou mais fresca, do jeito que ela merece ser vivida. Se não fosse pelo blog, acho que eu seria uma pessoa amarga. Em segundo lugar, descobri uma escritora dentro de mim. Se ela vai crescer ou não, só o tempo dirá. Em outros aspectos houve muita troca, a sensação de estar fazendo algo de bom que atinge outras pessoas, fora o carinho imenso que recebo há quase dois anos. É uma transformação e tanto, embora eu continue sendo a mesma pessoa, com desafios semelhantes aos anteriores, um filho para criar sozinha e coisas normais da vida como momentos de medo e solidão, cansaço e desespero. Para mim, o blog tem esse significado. Para os outros, acredito que ele acabe passando uma imagem exagerada de uma supermãe e mulher muito forte. E não é nada disso.

Até quando você pretende alimentar o blog?

Enquanto for possível. A vida continua e outras coisas vão entrando, fazendo parte, tomando seu tempo. Por isso tenho escrito pouco, mas pretendo retomar e não largar nunca. Quero escrever para meu filho, para mim, para os leitores, continuar escrevendo. Porque a vida sempre vai me dar motivo para refletir sobre alguma coisa. Mas confesso que nos últimos dois meses estou bem sumida. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Que tipo de experiência ou lição você percebe que o público busca ao acessar o blog ou adquirir o livro?

Acho que as pessoas buscam consolo por terem tido alguma perda, ou acham o blog ou o livro por acaso, sem ter tido nenhuma perda, e se surpreendem com o que existe ali de celebração do hoje. Acho que o que me moveu a escrever foi principalmente uma vontade de dizer para o mundo (e para o meu filho, como ponto de partida) que a gente leva uma vida para descobrir que as coisas mais importantes são as mais simples e mais cotidianas, as que a gente tem hoje, e que muitas vezes não valoriza. Acredito que as pessoas encontrem isso no livro e no blog.

Você alimenta projetos de continuar escrevendo livros?

Tenho esse projeto humildemente guardado no coração. Mas ainda não estou trabalhando nisso. Preciso descobrir um caminho e venho de 2 anos muito intensos. Meu filho está no auge do crescimento, falando, aprendendo, minha vida entrando nos eixos, o trabalho a mil por hora, fora o meu blog de moda (www.hojevouassim.blogspot.com). No meio disso tudo, ainda não descobri um caminho. Mas não há pressa.

Quais os livros mais importantes de sua vida?

Pode parecer incrível, mas eu li e leio muito menos do que gostaria, talvez por ter passado parte da vida com uma urgência constante de me expressar. Alguns livros que me marcaram: o Grande Sertão (Veredas), do Guimarães Rosa, Histórias de Cronópios e de Famas, do Júlio Cortázar, O Menino no Espelho, do Fernando Sabino, e vários textos curtos da Clarice Lispector, principalmente os que estão compilados no livro A Descoberta do Mundo. Li Carta a D., do André Gorz, recentemente, e me tocou muito, talvez por ter a ver com o aspecto particular do livro que eu estava colocando nas livrarias.

A FRASE

“A gente leva uma vida para descobrir que as coisas mais importantes são as mais simples e mais cotidianas, as que a gente tem hoje, e que muitas vezes não valoriza.” Cristiana Guerra, autora do blog e do livro Para Francisco

Outros títulos

Livros com histórias verídicas de perda e superação são sucesso em várias partes do mundo. Três títulos recentes são prova disso: O Ano do Pensamento Mágico, A Lição Final e Carta a D. - História de um Amor, que foram bem recebidos pelo público e pela crítica.

O primeiro, lançado em 2006 no Brasil, com 222 páginas, pela Nova Fronteira, é de autoria da escritora e jornalista norte-americana Joan Didion. Apesar de consagrada pela crítica, ela não era sucesso de público até publicar o livro em que narra em detalhes a perda do marido, o também escritor John Gregory Dunne, que teve um ataque cardíaco fulminante em 30 de dezembro de 2003.

Na busca por títulos literários e outras fontes que tratassem sobre o luto para escrever O Ano do Pensamento Mágico, Joan descobriu que a literatura sobre o assunto ainda é escassa.

Em A Lição Final (Ediouro, 240 páginas, 2008), é também para os filhos que o professor de ciência da computação Randy Pausch (1960-2008) se dirige, com a ajuda de Jeffrey Zaslow, co-autor do livro. Ao enfrentar um câncer maligno, ele deu sua última aula na Universidade Carnegie Mellon, em setembro de 2007 - a aula foi gravada e vista por milhões de pessoas no YouTube. Nela, em vez de falar sobre a experiência da doença, Pausch alerta sobre a importância de se viver plenamente.

Publicado originalmente em 2006, Carta a D. - História de um Amor só chegou ao Brasil no ano passado, pelas editoras Annablume e Cosac Naify. Escrito pelo filósofo marxista-existencialista André Gorz, faz um breve mas incisivo relato sobre a perda da mulher, a inglesa Dorine Kerr, vítima de doença degenerativa. Austríaco radicado na França, Gorz sintetiza, em apenas 80 páginas, os 54 anos de um amor que sobreviveu a muitas revoluções - íntimas e políticas. Apesar de não ser um tema muito comum, o luto continuará inspirando grandes obras ao longo dos séculos.

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