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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Odisseia de um dia


O que um dia na vida de um agente publicitário de Dublin, na Irlanda do começo do século 20, teve de especial para virar uma data até hoje lembrada em várias partes do mundo, inclusive em São Paulo? Um dos personagens mais celebrados da literatura, Leopold Bloom é um judeu de meia-idade que virou o arquético do anti-herói moderno ao ter seu universo interior ricamente detalhado por James Joyce no romance Ulisses, de 1922 — ironicamente, o título referencia o herói clássico da Odisseia, de Homero, a obra que fundou a literatura ocidental.

O dia em questão é 16 de junho de 1904. Em um resumo bem superficial, Bloom toma café, vai trabalhar, marca presença no enterro de um amigo e depois fica perambulando por bibliotecas, pubs e bordéis de Dublin até voltar para casa de madrugada, onde encontra a mulher, a cantora Molly, dormindo, e lhe acorda com um pedido incomum: que, ao amanhecer, lhe traga o café na cama — coisa que ele fizera à mulher durante 11 anos, desde a morte do filho, Rudy.

Pois é em homenagem a este que é considerado o romance mais representativo do século 20 — escrito originalmente em inglês — que fãs de diversos países se reúnem sempre no dia 16 de junho. É o chamado “Bloomsday” ou o "Dia de Bloom", uma data criada para que os leitores de Joyce pudessem reler e debater o livro.

Em 2009, faz 105 anos da data e Dublin está em festa, afinal, a cidade é o cenário pelo qual Bloom transita ao longo das 18 horas que tem sua alma dissecada no romance. Quem se aventura pelas quase mil páginas do livro vai descobrir que 16 de junho de 1904 foi um dia atribulado na vida do personagem, que naquela tarde conhece o jovem professor de história Stephen Dedalus, com quem busca algum sentido para a vida — Dedalus é o alter ego de Joyce desde seu romance anterior, o também celebrado Um Retrato do Artista Quando Jovem (1916).

Como escreveu a tradutora e pesquisadora da obra do escritor irlandês, Bernardina da Silveira Pinheiro, na apresentação da edição da Alfaguara: “Realmente tudo acontece naquele bendito dia 16 de junho de 1904: nascimento, morte, frustração, alegria, rejeição, traição, prazer, masturbação, menstruação, tudo, enfim, que um ser humano vivencia. Ulisses é, na realidade, uma extraordinária comédia humana”.

A data não era aleatória para Joyce: foi o mesmo dia e ano que Nora Barnacle, mulher do escritor, o “transformou em homem”, conforme ele assumiria em uma carta, anos mais tarde.

Paródia sofisticada

Mas o que faz um personagem aparentemente banal como Leopold Bloom ser, ainda hoje, tão celebrado? A resposta está na forma e na linguagem sobre as quais o escritor irlandês labutou durante sete anos para narrar o dia na vida de um homem. Ulisses faz uma paródia sofisticada da Odisseia, de Homero, mas com uma escrita repleta de coloquialismos, enigmas, jogos de palavras, citações de obras (inclusive de Shakespeare) e uso de vocábulos latinos, hebraicos, franceses, irlandeses, italianos, espanhóis e alemães, fazendo com que a obra ganhasse fama de difícil.

Para a especialista em história da literatura Thaís Manzano Ulisses é daqueles livros que “exigem leitor inteligente, que organize a narrativa”. Além da linguagem revolucionária, a obra inovou ao abandonar a narrativa linear para trabalhar com o fluxo de consciência por meio do monólogo interior das personagens — características que inauguraram o romance moderno. Desse modo, o universo interior de Bloom ganhou contornos tão épicos quanto os do herói clássico, como se o autor quisesse mostrar que “o fluxo de cada vida é tão heroico ou vulgar como o mito de Ulisses”, como observou Antonio Houaiss, o primeiro tradutor do romance no Brasil, onde o livro só chegou no final dos anos 60.

SAIBA MAIS

James Joyce nasceu em Dublin, Irlanda, em 1882. Marcado por rígida educação jesuíta, estudou filosofia e línguas na University College.

Em 1902, deixa a cidade natal para ir morar em Paris, onde trabalha como jornalista e professor.

Dois anos depois, conhece Nora Barnacle, que se tornaria sua mulher somente em 1931. Com ela, se muda para a cidade italiana de Trieste, onde escreve a coletânea de contos Dublinenses (1914) e o romance Um Retrato do Artista Quando Jovem (1916).

Com a 1ª Guerra Mundial, refugia-se em Zurique, onde escreve Ulisses (1922), com o qual consegue reconhecimento internacional.

De volta a Paris em 1920, dedica 17 anos à elaboração do último romance, Finnegans Wake (1939).

Com o início da 2ª Guerra Mundial e a ocupação da França, retorna a Zurique, onde morre, em 1941.

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