
Fabrício Carpinejar é uma pessoa desconcertante. O rosto medieval contrasta com o visual moderno: camisa assinada por Ronaldo Fraga, calça jeans, tênis, unhas de uma das mãos pintadas de verde e a nuca com a palavra “gol” desenhada nos cabelos — ele é fanático pelo Internacional e, na ocasião, o time tinha vencido o Flamengo.
Poeta, jornalista, professor de literatura e consultor sentimental — também escreve para o blog Consultório Amoroso, em que responde às perguntas enviadas pelos internautas — esse gaúcho de Caxias do Sul, filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, e radicado em São Leopoldo, é dono de uma das obras poéticas mais comentadas e premiadas da atualidade.
Aos 36 anos de idade, ele é autor de uma extensa bibliografia (confira em quadro nesta página), que começa em 1998, com As Solas do Sol, e é permeada pelas experiências ligadas à terra natal e à família e pela imaginação, como quando se projeta aos 72 anos de idade no livro Terceira Sede — Elegias, de 2001 — reeditado este ano pela Bertrand Brasil.
Separado duas vezes e duas vezes pai, ele passa a escrever crônicas sobre amor e relacionamentos em 2006. São textos marcados pelo humor e pela autoironia, como se nota no livro Canalha! Retrato Poético e Divertido do Homem Contemporâneo, lançado no ano passado e que deu muito o que falar.
A entrevista que Carpinejar concedeu foi feita minutos depois dele ministrar um workshop de poesia no encontro literário Versões — realizado no final de maio, pelo Sesc-Campinas. Era uma noite fria e ele chegou à mesa com dois capuccinos grandes: um para ele e o outro para a repórter, que lhe agradeceu a gentileza. “Não estou sendo gentil. Estou apenas sendo autêntico”, respondeu o poeta, quebrando qualquer formalidade. Leia, abaixo, trechos da entrevista.
No livro Canalha!, você fala sobre comportamento masculino. O que mudou?
O homem, antes, era ostensivamente masculino. Hoje, ele é implicitamente masculino. Ele gosta da penumbra. O canalha é viril no silêncio, no mistério.
Por que o termo canalha?
Porque é delicioso ouvir de uma mulher que se é canalha. Uma mulher não consegue espantar o homem chamando ele de canalha. Tenta. Fala canalha pra mim.
Canalha.
Viu? Você não consegue. A mulher fala canalha sorrindo.
Eu nunca chamei ninguém de canalha.
É uma pena. Acho que tem uma lacuna terrível em sua vida. É excitante. Só usa canalha para um homem que não tem como ser corrigido. Canalha é quase uma declaração de amor. Se “tu” quiser abandonar esse homem, vai chamá-lo de pilantra, cretino.
Todo canalha é sedutor? Seria uma espécie de Don Juan?
Seria um Casanova. Ele se importa com as mulheres. Ele entende que a mulher não quer o homem, ela quer o homem e seu mundo. Tem de trazer o contexto junto. Você não vai conquistar uma mulher pela conversa que tem com ela, mas como reage conversando, como reage com os amigos, com o porteiro. Ela vai te avaliar muito mais por aquilo que não acontece na conversa.
De onde vem o seu prazer de falar desses assuntos?
Sobrevivência. Sou um homem feio.
A literatura veio como uma forma de compensação?
É uma maneira de se estender, de se prolongar. De criar personagens, situações, histórias. Não me limitei ao que sou. Me ampliei ao que vejo. O humor me salvou, não a literatura.
O humor na maneira de viver?
O homem que não sabe rir de si mesmo não vai sair de uma dor de cotovelo. O sexo termina na amargura.
Foi por meio da poesia que você conseguiu respeito?
Eu conquistei o desrespeito, que é uma forma de respeito ainda maior. Um poeta que se dá bem com todo mundo está fazendo uma outra coisa que não poesia. Ele deveria estar trabalhando no Itamaraty. Porque você está num ato de franqueza e transparência inadmissíveis. Tem de ter uma crueldade consigo para não ser cruel com os outros.
Você tem de ser prodígio de seus defeitos.
Você acha que isso aproxima a poesia das pessoas, pela identificação?
Pela humanidade. Gosto muito de uma frase de Nelson Rodrigues, “toda grandeza desumaniza”. A gente tem que encolher. Nosso corpo encolhe ao longo da vida de propósito. A gente tem que aprender a dar espaço.
Foi por isso que você se projetou aos 72 anos no livro A Terceira Sede? O que acontecia na sua cabeça naquele momento?
Uma irritação. Eu ia nos Correios ou no banco e na minha frente tinha um velho que conversava com um atendente. Eu não compreendia que aquele era o momento sociável dele. Tinha um momento em que ele ia para a rua narrar suas proezas prosaicas. Era a maneira de ele existir. E eu tentei me colocar no lugar dele. Depois eu quis me colocar aos 70 anos. Como eu faria? Por exemplo, minha mãe está com 70 anos. Para mim, isso é estar com o pé na cova. E a gente não percebe o quanto envelhece. A gente tem medo de chamar alguém de velho. Acho que esse livro é muito cool nesse sentido. Ele coloca o velho como velho e une as pontas da vida. A infância é um excesso de imaginação e a velhice, um excesso de memória. Ambas têm dificuldades de pensar. Até hoje tem coisas da minha infância que eu não sei se imaginei ou se vivi ou se me contaram. Na velhice, é a mesma coisa.
Por que a memória tem um papel tão importante na sua literatura?
Minha memória é uma forma de ter futuro. Ela não se relaciona só com o passado. Assim como o amor presente também altera os amores antigos. A gente altera o passado. O passado não é imóvel.
Você gosta de viajar no tempo da memória e da imaginação.
É o que me salvou.
Salvou do quê?
Do isolamento.
Você tinha tendência para se isolar?
Todos têm tendência de se isolar. Mas eu sou extremamente contagioso. Eu gosto de me contagiar. Sou viral nesse sentido. Acho que meu caminho era direcionado para o encolhimento, para a vergonha, para ficar encabulado. Para uma timidez sem recreio. E eu consegui trabalhar isso que é a exposição. A exposição me protege.
E aí contradiz aquela imagem do poeta ensimesmado, do poeta solitário.
Eu não me aguento muito tempo preocupado.
Mas ocupado sim. Você se isola para escrever?
Eu escrevo em qualquer lugar.
Não tem essa coisa do ritual de escrever?
O ritual de escrever não define minha literatura. O que define a minha literatura é o deslugar. A falta de lugar é o que faz escrever. Não é o lugar. Se você tem um lugar, você não vai escrever. Você está procurando um lugar.
Mudando de assunto, o governo paulista proibiu fumar em qualquer lugar fechado e quer proibir até quentão em festa junina. O que você acha disso?
Estão subestimando as pessoas a ponto de dizer que elas não podem decidir. A gente está deixando que o governo escolha por nós. A gente está numa fase em que não quer sofrer, não quer arcar com as consequências. O governo está dizendo que não temos qualidade mental para cuidar das nossas vidas.
Você acha que as pessoas estão se infantilizando?
É uma boa perspectiva. Elas estão se infantilizando. Porque elas nem questionam por ter um significado maior, que é a saúde.
E saúde para quê? O que será que as pessoas querem viver?
Não importa. O importante é ter saúde, não como você emprega essa saúde.
No seu blog, você escreveu que alguém tem de ter coragem de envelhecer neste mundo...
A gente não está preparado para o velho hoje. Que é um velho que envelheceu muito mais do que qualquer outro velho. Eu tenho 36 anos e parece que vivi séculos. A mudança abrupta da tecnologia nos fez envelhecer a ponto de estarmos com 30 anos e ficar com vontade de escrever nossas memórias. Nunca a autobiografia foi tão precoce. Escrevi a minha com medo de morrer antes.
Será que quando você chegar aos 72 anos vai escrever suas memórias de novo?
Não sei se vou ter esse capricho.
Será que você estará vestindo um fardão da Academia Brasileira de Letras?
Isso não é um objetivo de vida (pausa). Acho que posso pedir emprestado para o meu pai.
Você está para lançar o livro A Família Não é uma Empresa. Como é esse livro?
Vou comparar minha infância com a dos meus filhos. O livro trabalha com essa percepção de que a gente precisa ter um lugar para falir. Rivaliza com a autoajuda que trabalha a família como se fosse um negócio, e o filho, um empregado. É um livro para retrabalhar esse sentido de família, de convivência, de contar os problemas em casa.
O que falta nas famílias de hoje?
Falta o amadorismo do gesto, o amadorismo da conversa, a inconsequência do afeto. Eu quis trazer toda a minha infância junto da dos meus filhos para ver até que ponto a gente não está permitindo que as crianças tenham cicatrizes. O pai, hoje, acha que tem de sofrer no lugar do filho. A gente se torna velho no momento em que diz que nosso passado era melhor. Eu tentei fugir um pouco disso. Comparo, mas sem estabelecer o melhor, porque até o meu passado precisa ser alterado.
Pelas memórias.
Pelos meus filhos. Eles têm a capacidade de me reinventar, de me dizer algo que não fiz naquele tempo. A infância dos meus filhos é contemporânea da minha infância. Eles reparam atitudes, devolvem gestos, recompensam, me preparam para enxergar aquilo que eu queria esquecer. Me preparam para lembrar aquilo que eu precisava.
É como se você continuasse neles.
A paternidade é uma paciência consigo mais do que com os filhos. É isso o que a gente não entende. E eles sentem. Mesma coisa que botar uma criança para dormir querendo que ela durma logo a todo custo para poder fazer outras coisas. Eu me lembro que era um liquidificador com a primeira filha, a Mariana, que está com 15 anos. Fui aprender a virar chaleira com o Vicente.
Você se realiza sendo pai?
Meu sono mudou. A delicadeza mudou. Ser pai é se permitir a perder tempo. Por exemplo, eu e meu filho temos um país imaginário chamado Lídimo, que significa autêntico e verdadeiro. Então, a gente criou a bandeira, os estados, as capitais e as cidades e está criando o hino. É uma ilha perto da Oceania. O idioma é o português lido ao contrário.
Isso é perder tempo?
O que você perde em tempo você ganha em eternidade no teu filho, que é a sequência. O que o filho mais pede é a sequência. Que aquela história que você leu no dia anterior tenha sentido no dia seguinte. É se importar com o lembrar.

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