Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sob o signo do corvo


A sombra e o mistério sempre pairaram sobre a vida e a obra do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), autor de famosos contos de terror, mistério e morte e de poemas obscuros como O Corvo (The Raven), de 1845, traduzido por Fernando Pessoa e por Machado de Assis, só para citar os mais ilustres da nossa língua. A despeito da trajetória tortuosa, cercada de perdas, loucura, paixões platônicas, peregrinação por cidades e empregos e luta por reconhecimento, Poe deixou uma “prole” importante: críticos mais fervorosos o consideram o pai do romance policial, da ficção científica, da poesia simbolista e da nova crítica literária norte-americana.

Entre seguidores e escritores que ele teria influenciado estão Júlio Verne, Arthur Rimbaud, Paul Valéry, Charles Baudelaire e Fiódor Dostoiévski. Nascido no dia 19 de janeiro de 1809, cinco cidades dos Estados Unidos comemoram o bicentenário de nascimento do poeta, contista, romancista, crítico e editor com uma série de homenagens, entre elas, o tributo feito pelo ator John Astin, que vive o personagem Gomez Addams na série de televisão Família Addams, na cidade de Baltimore, em Maryland, onde Poe morreu há quase 160 anos (que também serão lembrados em outubro deste ano). Nada mais apropriado.

As demais cidades são Boston, em Massachusetts, onde Allan Poe nasceu e nunca mais voltou; Richmond, no estado de Virgínia, onde cresceu; Filadélfia, cidade em que criou as obras mais conhecidas; e Nova York, cenário do seu sucesso literário.

Tudo indica que o esforço das cidades em torno das homenagens a Poe pode render aspectos ainda mais bizarros à já estranha trajetória do escritor — que teria forjado a própria biografia. Pois um acadêmico americano, Edward Pettit, defende a necessidade de se exumar os restos de Poe, em Baltimore, para enterrá-los na Filadélfia, onde o autor teria escrito suas obras mais importantes. Pettit, claro, comprou briga com Jeff Jerome, curador da Poe House and Museum, em Baltimore.

A cidade em que o escritor viveu aos vinte e poucos anos, e morreu, aos 40, se supera nas homenagens. O time de futebol de Baltimore se chama Ravens (corvos) e, anualmente, há bastante tempo, um fã anônimo deixa uma dose de conhaque e três rosas vermelhas no primeiro túmulo do escritor — em 1875, seus ossos foram transferidos para outro local do cemitério próximo à igreja de Westminster Hall.

A igreja também será cenário, em outubro deste ano, da encenação do funeral de Poe, com uma réplica de seu corpo. O evento pretende dar ao poeta o funeral que ele merece e não teve, quando morreu quatro dias depois de ter sido encontrado semiconsciente por um amigo, em uma taberna de Baltimore, vestindo roupas que não eram as suas.

Inicialmente incompreendida em seu país, a obra de Poe foi acolhida com entusiasmo pelos poetas simbolistas franceses, sobretudo pelo autor de Flores do Mal, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867), que traduziu para o francês O Corvo e vários outros poemas e contos, além de escrever o Ensaio Sobre Edgar Allan Poe (1852).

TRECHO*

“(...) Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”. (...)

*Trecho extraído de O Corvo, com tradução de Fernando Pessoa

Filho de atores, escritor que ficou órfão aos 2 anos sofreu com o alcoolismo

Nascido Edgar Poe, em Boston, nos Estados Unidos, filho de jovens atores de teatro, o futuro escritor ficou órfão aos 2 anos de idade. Foi criado por um John Allan, rico comerciante de Richmonde, em Virgínia, que o enviou para a Europa a fim de lhe proporcionar uma educação clássica.

Entre 1815 e 1820, Poe vive entre a Escócia e a Inglaterra.

De volta aos Estados Unidos, entra para a Universidade da Virgínia, onde envolve-se com jogos e álcool até romper relações com seu tutor, em 1827. No mesmo ano, publica, em Boston, o primeiro livro de poesia, Tamerlão e Outros Poemas.

Tenta carreira militar em West Point, mas é expulso. Ao decidir trabalhar somente com literatura, muda-se para a casa de uma tia, em Baltimore, onde publica contos em revistas. Em 1833, recebe um prêmio em dinheiro por seu Manuscrito Encontrado em uma Garrafa. Dois anos depois, em Richmond, torna-se editor do Southern Literary Messenger e casa-se com a prima Virgínia Clemm, de 13 anos de idade.

Demitido por causa do alcoolismo, vai morar em Nova York, onde escreve diversos contos policiais e de horror. Paralelamente, produz críticas literárias e ensaios sobre estética e teoria literária. Com a morte da mulher, em 1847, afunda-se ainda mais na dependência alcoólica.

Em setembro de 1849, prestes a se casar novamente, desaparece por vários dias, até ser reencontrado por um amigo em Baltimore, no dia 3 de outubro, em estado delirante. Quatro dias depois, morre em um hospital. Suas últimas palavras teriam sido: “Senhor, ajudai minha pobre alma”.

SAIBA MAIS

Algumas obras de Edgar Allan Poe:

POESIA

O Dormente (1831)
Lenore (1831)
Annabel Lee (1849)
O Corvo (1845)

CONTOS

Manuscrito Encontrado em uma Garrafa (1832)
A Queda da Casa de Usher (1839)
Os Assassinatos na Rua Morgue (1841)
O Mistério de Marie Rogét (1842-1843)
O Poço e o Pêndulo (1842)
O Escaravelho de Ouro (1843)
A Carta Roubada (1844)
O Barril de Amontillado (1846)

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