Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De volta ao pedestal


“Nem vem que não tem/Nem vem com garfo que hoje é dia de sopa/ Esquenta o ferro/Passa a minha roupa.” Quem não se lembra desses versos cantados de um jeito todo malandro no filme Cidade de Deus, na cena em que um grupo assalta uma loja de armas, no Rio de Janeiro? A música, composta por Carlos Imperial e interpretada por Wilson Simonal, fez parte de um gênero que não durou muito tempo: a pilantragem, termo cunhado pelo próprio Imperial e representado com muito estilo pelo cantor, que não fazia gênero bom moço.
Artista de grandes recursos, bonitão e cheio de banca, Simona (como também era conhecido) sabia como dominar plateias imensas e, rapidamente, conquistou muito sucesso e dinheiro. Filho de empregada doméstica e ex-cabo do Exército, o cantor desfilava pelo Rio de Janeiro com roupas caras, a bordo de conversíveis, totalmente alheio ao momento político delicado pelo qual o País passava no final dos anos 60, quando recrudesceu a perseguição política aos artistas e intelectuais. Por essa e por outras, provocou muita inveja e desconfiança, e acabou se envolvendo em uma polêmica que o tirou do pedestal.
A carreira e a vida do cantor condenado ao esquecimento quando teve o nome associado à ditadura são resgatadas no sensacional documentário Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei, dirigido pelo “Casseta” Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, virou mania nas salas do Rio de Janeiro e São Paulo.
O filme foi exibido em diversos festivais no ano passado — quando fez 70 anos do nascimento de Simonal — e venceu o 1º Paulínia Festival de Cinema como melhor documentário, na eleição dos júris oficial e popular.
Muito do sucesso do longa se deve a três fatores: à montagem moderna, em ritmo de videoclipe, com o uso de vinhetas cheias de grafismos e animações psicodélicas para separar as várias fases da carreira; às imagens de arquivo, que revelam a exuberante performance do cantor às novas gerações; e aos depoimentos de personagens imprescindíveis para se reconstruir a grandeza de Simonal como artista e as fraquezas dele como pessoa — entre os entrevistados, estão Luiz Carlos Miéle, Jaguar, Ziraldo, Nelson Motta, Chico Anysio, Pelé, Tony Tornado, e claro, com os filhos do artista, os também cantores Max de Castro e Simoninha.
Mas a maior contribuição da obra foi jogar luz sobre o episódio que levou o cantor a ser considerado informante dos militares — delito que ele negou até morrer de cirrose, em 2000, aos 62 anos, após tomar um porre de ostracismo. Fruto de verdadeiro trabalho de jornalismo investigativo, os diretores conseguiram desencavar um personagem crucial, 40 anos depois do triste episódio, a fim de esclarecer o que, afinal, aconteceu para a esquerda e a imprensa brasileiras concluírem que Wilson Simonal era espião da ditadura.
Apesar do clima de pesar que toma conta do filme ao repassar os motivos que levaram o artista à decadência moral e financeira, Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei é recheado de momentos maravilhosos, como quando ele faz um dueto com Sarah Vaughan, cantando em inglês perfeito (apesar de não saber falar a língua) e histórias deliciosas e muito engraçadas, protagonizadas pelo dono de uma das vozes mais bonitas da música brasileira, talvez, a maior voz de todos os tempos.

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