Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A grandeza das coisas miúdas


Assim como a poesia subverte o sentido das coisas e das palavras, a linguagem do documentário também reinventa a realidade. Afinal, qualquer recorte dos fatos se aproxima muito mais de uma versão do que uma verdade. E ninguém melhor para falar sobre as diversas versões para a realidade do que o poeta matogrossense Manoel de Barros, autor de 20 livros publicados, que se orgulha de suas “memórias inventadas” e diz que 90% do que escreve é invenção – nesse caso, é apenas a forma originalíssima com que vê as coisas ao redor e as retrata por meio da poesia.


Com o nome de Só Dez Por Cento é Mentira – A Desbiografia Oficial de Manoel de Barros, um documentário conseguiu o que parecia impossível: registrar, em audiovisual, uma longa entrevista com o poeta, que recusava qualquer tentativa de gravarem sua voz – para ele, “a palavra oral não dá rascunho” – e a quem interessava tornar público somente o “ser letral” pelo simples fato de o “ser biológico ser totalmente sem graça”.


O diretor Pedro Cezar (do genial documentário Fábio Fabuloso e que também é poeta) conseguiu a façanha após muitas tentativas e levou dois anos para realizar o filme. Foi ao soltar a frase “era só um sonho mesmo”, por telefone, diante de mais uma negativa de Barros, que ele ouviu o tão desejado sim.


Vencedor na categoria melhor documentário no 2º Festival Paulínia de Cinema, realizado do dia 9 a 16 de julho, Só Dez Por Cento é Mentira (saiba mais em www.sodezporcentoementira.com.br) deve chegar aos cinemas entre 4 e 11 de setembro, com distribuição da Downtown Filmes.


É impressionante a forma como o filme provoca nossos sentidos ao captar o universo de Barros por meio da câmera sensível, que instiga tanto o olhar criativo quanto o contemplativo sobre objetos, paisagens e pessoas. Imagens simples como um muro descascado ou um portão enferrujado ganham sentidos completamente outros quando somadas à música originalmente composta por Marcos Kuzka, com tablas, violas, violões e outros instrumentos (procure em www.myspace.com/sodezporcento) e aos versos do poeta, que se formam palavra por palavra na tela grande.


Não espere paisagens deslumbrantes do Pantanal emoldurando essa desbiografia. Tudo ali é mostrado nas miudezas e com certo humor, como é a poesia de Manoel de Barros, que está com 92 anos de idade e mora na área rural de Campo Grande. Em sua casa, há um espaço batizado por ele de “lugar de ser inútil”, que é onde escreve os poemas, tudo à mão, e confecciona as centenas de caderninhos de rascunho que coleciona.


A montagem dinâmica intercala depoimentos de artistas, críticos, amigos e parentes sem qualquer didatismo. Ainda com a preocupação de participar o espectador do processo de feitura do documentário, Pedro Cezar utiliza o recurso da narração em off ao longo de todo o documentário, sem desmitificar a figura do poeta, que diz não querer dar informações, mas encantamento. Afinal, “se os fatos não correspondem à vida, pior para os fatos”.

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