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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Enquanto a vida não vem


Heitor Dhalia surpreende no terceiro longa-metragem, À Deriva (Brasil/Estados Unidos), com uma história de emoções sutis na superfície e conturbadas mais ao fundo, que pede a colaboração do espectador na construção do drama que vive a personagem principal, a adolescente Filipa (Laura Neiva). Talvez a única semelhança que tenha com Nina (2004) e O Cheiro do Ralo (2006) – longas anteriores de Dhalia – seja o foco em personagens que sofrem de inadequação social.

Primeira produção internacional do diretor e roteirista brasileiro, À Deriva narra conflitos íntimos, que vêm de fontes variadas: da passagem de Filipa para a vida adulta, da descoberta do sexo, das traições protagonizadas por seus pais – brilhantemente vividos pelo ator francês Vincent Cassel (de Irreversível) e por Débora Bloch – e das consequentes violações verbais e emocionais provocadas por ambos.

O cenário não poderia ser mais adequado a esse drama familiar com gosto de tragédia anunciada: o mar, tão sedutor e traiçoeiro quanto qualquer promessa de amor eterno ou família plenamente feliz. Ambientada nos anos 80, em Búzios, no Rio de Janeiro, a história – escrita por Dhalia com a diretora paulistana Vera Egito – acompanha as férias atribuladas de uma família classe média alta.

À primeira vista, tudo parece em harmonia, mas os belos rostos guardam mágoas profundas, que vêm à tona em forma de ressaca, e isso não é apenas uma metáfora. Clarice (Débora Bloch) é uma professora em crise com o casamento que gerou duas meninas, um garoto e muitas dúvidas em relação ao marido, o escritor francês radicado no Brasil, Mathias (Vincent Cassel, que fala português). O uísque passa a ser o antídoto para o tédio, enquanto o marido busca inspiração para o novo romance em outra mulher (Camilla Belle).

Assim como no filme O Piano (1993), de Jane Campion, Dhalia revela a crise do casal por meio do olhar de Filipa, que perde os últimos traços da infância e descobre o sexo ao testemunhar a traição do pai. Solitária em suas descobertas, a garota devolve a angústia em forma de crueldade para com os amigos e de precocidade sexual, ao decidir se entregar a um homem mais velho.

Outras semelhanças com o filme de Campion aparecem na relação dos protagonistas com o mar – À Deriva começa e termina dentro d’água – e na trilha sonora, composta originalmente por Antonio Pinto, com piano e cordas, lembrando um réquiem. Daí a sensação de tragédia iminente que perpassa todo o filme.

A beleza da menina se tornando mulher em meio ao cenário paradisíaco de Búzios e Cabo Frio (onde foram rodadas algumas cenas) cresce com a fotografia de Ricardo Della Rosa, que faz o contraponto entre a adolescente solar e os pais crepusculares. Essa contraposição também é realçada pela câmera quase epidérmica de Dhalia, que resvala nos cabelos ao vento e na pele dourada de Filipa, assim como nos vincos de mágoa dos pais e nas sombras interiores da casa de praia.

Apesar de bem mais maduro como cineasta, Dhalia ainda é capaz de escolhas perigosas, como pela estreante Laura Neiva para protagonizar essa história densa e delicada, mas que aqui faz todo o sentido. Afinal, em um filme sobre a inconstância das relações humanas, o excesso de profissionalismo poderia não nos convencer da fragilidade da personagem. Aliás, a espontaneidade parece ter sido um elemento desejado pelo diretor, pois ela marca todas as interpretações.

Aplaudido por cinco minutos no 62º Festival de Cannes, em première mundial na mostra paralela Um Certain Regard (Um Certo Olhar), À Deriva foi exibido pela primeira vez no Brasil no dia 9 de julho, abrindo o 2º Festival Paulínia de Cinema, fora da mostra competitiva. Por não ser um filme leve, destoou um pouco do clima de festa da abertura.

O FILME

À Deriva, de Heitor Dhalia. Com Vincent Cassel, Débora Bloch, Laura Neiva, Cauã Reymond, Camilla Belle

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