Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

sábado, 18 de julho de 2009

O tempo do preconceito


Quem é capaz de continuar admirando alguém que se revela intolerante com as diferenças? Talvez o amor resista até o preconceito entrar em cena.

Questões assim são tratadas com delicadeza e beleza no segundo longa-metragem do diretor Roberto Moreira, Quanto Dura o Amor?, exibido pela segunda vez este ano – a primeira foi no dia 11 de julho, no Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo –, no 2º Festival Paulínia de Cinema, no dia 12 de julho, saindo premiado duas vezes na categoria melhor atriz para Silvia Lourenço e para a estreante no cinema Maria Clara Spinelli, conhecida dos palcos paulistanos.

Moreira estreou em 2004, com o filme Contra Todos, que guarda semelhanças com o novo projeto nos encontros sexuais explosivos entre personagens díspares. Assim como aquele trazia um matador de aluguel atraído por uma evangélica e um negro por uma adolescente branca, Quanto Dura o Amor? acompanha três relacionamentos que também desafiam preconceitos em relação a gênero, raça e profissão.

O roteiro escrito por Anna Muylaert (Durval Discos) e Roberto Moreira gira em torno da atriz Marina (Silvia Lourenço, foto), que disputa o amor da cantora de rock Justine (Danni Carlos) com o dono de bar Nuno (Paulo Vilhena); da advogada Suzana (Maria Clara Spinelli), que guarda um segredo importante do pretendente Gil (Gustavo Machado); e do escritor nerd Jay (Fábio Helford), que é obcecado pela prostituta Michelle (Leilah Moreno).

São Paulo é o lugar para as histórias que se intercalam. Em muitas cenas, a cidade é captada de cima do Condomínio Jaqueline (que daria nome ao longa, não fossem as mudanças no roteiro), na Avenida Paulista, próximo à Avenida Consolação, onde moram Marina, Suzana e Jay. Com ênfase nas cenas noturnas, o diretor de fotografia Marcelo Trotta conseguiu transformar o cenário em mais uma personagem na trama, capaz de influenciar, com seu ritmo, cores e sons, o humor e as decisões das personagens.

A trilha sonora, assinada por Livio Tragtemberg, é outro elemento que dá força à trama, ao assinalar o sentimento das personagens. Para além da música originalmente composta, a produção também apostou em uma pérola do pop internacional para abrir o filme: a canção High and Dry, da banda Radiohead, que assistiu ao filme antes de liberar a música que integra o álbum The Bends (1995). A música também aparece também na voz de Danni Carlos ao violão.

Mais do que histórias de amor, o filme nos coloca dilemas importantes a serem resolvidos intimamente e também publicamente, e revela que a entrega amorosa depende da capacidade do ser humano se maravilhar, mais do que se assustar, diante do novo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Enquanto a vida não vem


Heitor Dhalia surpreende no terceiro longa-metragem, À Deriva (Brasil/Estados Unidos), com uma história de emoções sutis na superfície e conturbadas mais ao fundo, que pede a colaboração do espectador na construção do drama que vive a personagem principal, a adolescente Filipa (Laura Neiva). Talvez a única semelhança que tenha com Nina (2004) e O Cheiro do Ralo (2006) – longas anteriores de Dhalia – seja o foco em personagens que sofrem de inadequação social.

Primeira produção internacional do diretor e roteirista brasileiro, À Deriva narra conflitos íntimos, que vêm de fontes variadas: da passagem de Filipa para a vida adulta, da descoberta do sexo, das traições protagonizadas por seus pais – brilhantemente vividos pelo ator francês Vincent Cassel (de Irreversível) e por Débora Bloch – e das consequentes violações verbais e emocionais provocadas por ambos.

O cenário não poderia ser mais adequado a esse drama familiar com gosto de tragédia anunciada: o mar, tão sedutor e traiçoeiro quanto qualquer promessa de amor eterno ou família plenamente feliz. Ambientada nos anos 80, em Búzios, no Rio de Janeiro, a história – escrita por Dhalia com a diretora paulistana Vera Egito – acompanha as férias atribuladas de uma família classe média alta.

À primeira vista, tudo parece em harmonia, mas os belos rostos guardam mágoas profundas, que vêm à tona em forma de ressaca, e isso não é apenas uma metáfora. Clarice (Débora Bloch) é uma professora em crise com o casamento que gerou duas meninas, um garoto e muitas dúvidas em relação ao marido, o escritor francês radicado no Brasil, Mathias (Vincent Cassel, que fala português). O uísque passa a ser o antídoto para o tédio, enquanto o marido busca inspiração para o novo romance em outra mulher (Camilla Belle).

Assim como no filme O Piano (1993), de Jane Campion, Dhalia revela a crise do casal por meio do olhar de Filipa, que perde os últimos traços da infância e descobre o sexo ao testemunhar a traição do pai. Solitária em suas descobertas, a garota devolve a angústia em forma de crueldade para com os amigos e de precocidade sexual, ao decidir se entregar a um homem mais velho.

Outras semelhanças com o filme de Campion aparecem na relação dos protagonistas com o mar – À Deriva começa e termina dentro d’água – e na trilha sonora, composta originalmente por Antonio Pinto, com piano e cordas, lembrando um réquiem. Daí a sensação de tragédia iminente que perpassa todo o filme.

A beleza da menina se tornando mulher em meio ao cenário paradisíaco de Búzios e Cabo Frio (onde foram rodadas algumas cenas) cresce com a fotografia de Ricardo Della Rosa, que faz o contraponto entre a adolescente solar e os pais crepusculares. Essa contraposição também é realçada pela câmera quase epidérmica de Dhalia, que resvala nos cabelos ao vento e na pele dourada de Filipa, assim como nos vincos de mágoa dos pais e nas sombras interiores da casa de praia.

Apesar de bem mais maduro como cineasta, Dhalia ainda é capaz de escolhas perigosas, como pela estreante Laura Neiva para protagonizar essa história densa e delicada, mas que aqui faz todo o sentido. Afinal, em um filme sobre a inconstância das relações humanas, o excesso de profissionalismo poderia não nos convencer da fragilidade da personagem. Aliás, a espontaneidade parece ter sido um elemento desejado pelo diretor, pois ela marca todas as interpretações.

Aplaudido por cinco minutos no 62º Festival de Cannes, em première mundial na mostra paralela Um Certain Regard (Um Certo Olhar), À Deriva foi exibido pela primeira vez no Brasil no dia 9 de julho, abrindo o 2º Festival Paulínia de Cinema, fora da mostra competitiva. Por não ser um filme leve, destoou um pouco do clima de festa da abertura.

O FILME

À Deriva, de Heitor Dhalia. Com Vincent Cassel, Débora Bloch, Laura Neiva, Cauã Reymond, Camilla Belle

A grandeza das coisas miúdas


Assim como a poesia subverte o sentido das coisas e das palavras, a linguagem do documentário também reinventa a realidade. Afinal, qualquer recorte dos fatos se aproxima muito mais de uma versão do que uma verdade. E ninguém melhor para falar sobre as diversas versões para a realidade do que o poeta matogrossense Manoel de Barros, autor de 20 livros publicados, que se orgulha de suas “memórias inventadas” e diz que 90% do que escreve é invenção – nesse caso, é apenas a forma originalíssima com que vê as coisas ao redor e as retrata por meio da poesia.


Com o nome de Só Dez Por Cento é Mentira – A Desbiografia Oficial de Manoel de Barros, um documentário conseguiu o que parecia impossível: registrar, em audiovisual, uma longa entrevista com o poeta, que recusava qualquer tentativa de gravarem sua voz – para ele, “a palavra oral não dá rascunho” – e a quem interessava tornar público somente o “ser letral” pelo simples fato de o “ser biológico ser totalmente sem graça”.


O diretor Pedro Cezar (do genial documentário Fábio Fabuloso e que também é poeta) conseguiu a façanha após muitas tentativas e levou dois anos para realizar o filme. Foi ao soltar a frase “era só um sonho mesmo”, por telefone, diante de mais uma negativa de Barros, que ele ouviu o tão desejado sim.


Vencedor na categoria melhor documentário no 2º Festival Paulínia de Cinema, realizado do dia 9 a 16 de julho, Só Dez Por Cento é Mentira (saiba mais em www.sodezporcentoementira.com.br) deve chegar aos cinemas entre 4 e 11 de setembro, com distribuição da Downtown Filmes.


É impressionante a forma como o filme provoca nossos sentidos ao captar o universo de Barros por meio da câmera sensível, que instiga tanto o olhar criativo quanto o contemplativo sobre objetos, paisagens e pessoas. Imagens simples como um muro descascado ou um portão enferrujado ganham sentidos completamente outros quando somadas à música originalmente composta por Marcos Kuzka, com tablas, violas, violões e outros instrumentos (procure em www.myspace.com/sodezporcento) e aos versos do poeta, que se formam palavra por palavra na tela grande.


Não espere paisagens deslumbrantes do Pantanal emoldurando essa desbiografia. Tudo ali é mostrado nas miudezas e com certo humor, como é a poesia de Manoel de Barros, que está com 92 anos de idade e mora na área rural de Campo Grande. Em sua casa, há um espaço batizado por ele de “lugar de ser inútil”, que é onde escreve os poemas, tudo à mão, e confecciona as centenas de caderninhos de rascunho que coleciona.


A montagem dinâmica intercala depoimentos de artistas, críticos, amigos e parentes sem qualquer didatismo. Ainda com a preocupação de participar o espectador do processo de feitura do documentário, Pedro Cezar utiliza o recurso da narração em off ao longo de todo o documentário, sem desmitificar a figura do poeta, que diz não querer dar informações, mas encantamento. Afinal, “se os fatos não correspondem à vida, pior para os fatos”.

Vencedores do 2º Festival Paulínia de Cinema


Olhos Azuis, de José Joffily, recebeu o troféu Menina de Ouro como o melhor longa de ficção do II Festival Paulínia de Cinema que premiou, ainda, o documentário, Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar. O curta Timing, de Amir Admoni, e Spectaculum, de Juliano Luccas, emplacaram os melhores nas categorias nacional e regional, respectivamente.

O júri escolheu Ana Luiza Azevedo, de Antes que o mundo acabe, como a melhor direção de ficção, e a dupla Roberto Berliner e Pedro Bronz, por Herbert de Perto, pela direção de documentário.

O prêmio especial do júri foi para Contador de Histórias, de Luiz Villaça.

Júri de Longas

Zuenir Ventura – jornalista e escritor

Adhemar Oliveira – exibidor (sócio diretor dos circuitos Espaço e Arteplex)

Elena Soarez – roteirista

João Jardim – diretor

Maria Ângela de Jesus – diretora de produção da HBO

Júri de Curtas

Ana Carolina Lima – atriz

Hubert Alquéres – diretor presidente da Imprensa Oficial

César Cabralk – Cineasta

Helvécio Marins – produtor e selecionador dos Festivais de Rotterdan e Locarno

Wilson Cunha – jornalista

Maria Clara Fernandes – diretora de finalização

A seguir, a relação dos premiados:

Longa-metragem - Ficção:

Melhor Filme ficção: R$ 60 mil: Olhos Azuis, José Joffily.

Melhor Direção de Ficção: R$ 30 mil: Ana Luiza Azevedo, de Antes que o Mundo Acabe.

Prêmio Especial do Júri: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.

Melhor Roteiro: R$15 mil: Paulo Halm e Melanie Dimantas, de Olhos Azuis.

Melhor Ator: R$ 25 mil: Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, de O Contador de Histórias.

Melhor Atriz: R$ 25 mil: Cristina Lago, de Olhos Azuis / Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, de Quanto Dura o Amor?

Melhor Ator Coadjuvante: R$ 15 mil: Irandhir Santos, de Olhos Azuis.

Melhor Atriz Coadjuvante: R$ 15 mil: Nívea Magno, de No Meu Lugar.

Melhor Figurino: R$ 15 mil: Rosangela Cortinhas, de Antes que o Mundo Acabe.

Melhor Trilha Sonora: R$ 15 mil: Leo Henkin, de Antes que o Mundo Acabe.

Melhor Direção de Arte: R$ 15 mil: Fiapo Barth, de Antes que o Mundo Acabe.

Melhor Som: R$ 15 mil: François Wolf, de Olhos Azuis.

Melhor Montagem: R$ 15 mil: Pedro Bronz, de Olhos Azuis.

Melhor Fotografia: R$ 15 mil: Jacob Solitrenick, de Antes que o Mundo Acabe.

Longa-metragen - Documentário:

Melhor Documentário: R$ 45 mil: Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar
Melhor Direção de Documentário: R$ 30 mil: Roberto Berliner e Pedro Bronz, por Herbet de Perto.

Curta-metragem - Regional:

Melhor Filme: R$ 20 mil: Spectaculum, de Juliano Luccas

Melhor Direção: R$ 15 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será katlyn

Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Pedro Struchi, de Prós e Contras

Melhor Ator: R$ 8 mil: Alexandre Caetano, de Prós e Contras

Melhor Atriz: R$ 8 mil: Roseli Silva, de Morte Corporation

Melhor Montagem: R$ 8 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será Katlyn

Melhor Fotografia: R$ 8 mil: Marcelo Mazzariol, de Spetaculum

Curta-metragem - Nacional:

Melhor Filme: R$ 20 mil: Timing, de Amir Admoni

Melhor Direção: R$ 15 mil: Érico Rassi, de Milímetros

Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Erico Rassi de Milímetros

Melhor Ator: R$ 8 mil: Fábio Di Martino, de Milímetros

Melhor Atriz: R$ 8 mil: Débora Falabella, de Doce Amargo

Melhor Montagem: R$ 8 mil: Amir Admoni, de Timing

Melhor Fotografia: R$ 8 mil: André Modugno, de Relicário

Prêmio da Crítica:

Melhor Filme de Ficção: Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo

Melhor Filme de Documentário: Moscou, de Eduardo Coutinho.

Júri Popular:

Melhor Filme de Ficção: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.

Melhor Filme de Documentário: R$ 20 mil: Caro Francis, de Nelson Hoineff.

Melhor Curta-metragem Nacional: R$ 10 mil: Nesta Data Querida, de Julia Rezende.

Melhor Curta-metragem Regional: R$ 10 mil: Quem será katlyn, de Caue Fernandes Nunes.

sábado, 11 de julho de 2009

Don Juan das palavras


Fabrício Carpinejar é uma pessoa desconcertante. O rosto medieval contrasta com o visual moderno: camisa assinada por Ronaldo Fraga, calça jeans, tênis, unhas de uma das mãos pintadas de verde e a nuca com a palavra “gol” desenhada nos cabelos — ele é fanático pelo Internacional e, na ocasião, o time tinha vencido o Flamengo.

Poeta, jornalista, professor de literatura e consultor sentimental — também escreve para o blog Consultório Amoroso, em que responde às perguntas enviadas pelos internautas — esse gaúcho de Caxias do Sul, filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, e radicado em São Leopoldo, é dono de uma das obras poéticas mais comentadas e premiadas da atualidade.

Aos 36 anos de idade, ele é autor de uma extensa bibliografia (confira em quadro nesta página), que começa em 1998, com As Solas do Sol, e é permeada pelas experiências ligadas à terra natal e à família e pela imaginação, como quando se projeta aos 72 anos de idade no livro Terceira Sede — Elegias, de 2001 — reeditado este ano pela Bertrand Brasil.

Separado duas vezes e duas vezes pai, ele passa a escrever crônicas sobre amor e relacionamentos em 2006. São textos marcados pelo humor e pela autoironia, como se nota no livro Canalha! Retrato Poético e Divertido do Homem Contemporâneo, lançado no ano passado e que deu muito o que falar.

A entrevista que Carpinejar concedeu foi feita minutos depois dele ministrar um workshop de poesia no encontro literário Versões — realizado no final de maio, pelo Sesc-Campinas. Era uma noite fria e ele chegou à mesa com dois capuccinos grandes: um para ele e o outro para a repórter, que lhe agradeceu a gentileza. “Não estou sendo gentil. Estou apenas sendo autêntico”, respondeu o poeta, quebrando qualquer formalidade. Leia, abaixo, trechos da entrevista.

No livro Canalha!, você fala sobre comportamento masculino. O que mudou?

O homem, antes, era ostensivamente masculino. Hoje, ele é implicitamente masculino. Ele gosta da penumbra. O canalha é viril no silêncio, no mistério.

Por que o termo canalha?

Porque é delicioso ouvir de uma mulher que se é canalha. Uma mulher não consegue espantar o homem chamando ele de canalha. Tenta. Fala canalha pra mim.

Canalha.

Viu? Você não consegue. A mulher fala canalha sorrindo.

Eu nunca chamei ninguém de canalha.

É uma pena. Acho que tem uma lacuna terrível em sua vida. É excitante. Só usa canalha para um homem que não tem como ser corrigido. Canalha é quase uma declaração de amor. Se “tu” quiser abandonar esse homem, vai chamá-lo de pilantra, cretino.

Todo canalha é sedutor? Seria uma espécie de Don Juan?

Seria um Casanova. Ele se importa com as mulheres. Ele entende que a mulher não quer o homem, ela quer o homem e seu mundo. Tem de trazer o contexto junto. Você não vai conquistar uma mulher pela conversa que tem com ela, mas como reage conversando, como reage com os amigos, com o porteiro. Ela vai te avaliar muito mais por aquilo que não acontece na conversa.

De onde vem o seu prazer de falar desses assuntos?

Sobrevivência. Sou um homem feio.

A literatura veio como uma forma de compensação?

É uma maneira de se estender, de se prolongar. De criar personagens, situações, histórias. Não me limitei ao que sou. Me ampliei ao que vejo. O humor me salvou, não a literatura.

O humor na maneira de viver?

O homem que não sabe rir de si mesmo não vai sair de uma dor de cotovelo. O sexo termina na amargura.

Foi por meio da poesia que você conseguiu respeito?

Eu conquistei o desrespeito, que é uma forma de respeito ainda maior. Um poeta que se dá bem com todo mundo está fazendo uma outra coisa que não poesia. Ele deveria estar trabalhando no Itamaraty. Porque você está num ato de franqueza e transparência inadmissíveis. Tem de ter uma crueldade consigo para não ser cruel com os outros.
Você tem de ser prodígio de seus defeitos.

Você acha que isso aproxima a poesia das pessoas, pela identificação?

Pela humanidade. Gosto muito de uma frase de Nelson Rodrigues, “toda grandeza desumaniza”. A gente tem que encolher. Nosso corpo encolhe ao longo da vida de propósito. A gente tem que aprender a dar espaço.

Foi por isso que você se projetou aos 72 anos no livro A Terceira Sede? O que acontecia na sua cabeça naquele momento?

Uma irritação. Eu ia nos Correios ou no banco e na minha frente tinha um velho que conversava com um atendente. Eu não compreendia que aquele era o momento sociável dele. Tinha um momento em que ele ia para a rua narrar suas proezas prosaicas. Era a maneira de ele existir. E eu tentei me colocar no lugar dele. Depois eu quis me colocar aos 70 anos. Como eu faria? Por exemplo, minha mãe está com 70 anos. Para mim, isso é estar com o pé na cova. E a gente não percebe o quanto envelhece. A gente tem medo de chamar alguém de velho. Acho que esse livro é muito cool nesse sentido. Ele coloca o velho como velho e une as pontas da vida. A infância é um excesso de imaginação e a velhice, um excesso de memória. Ambas têm dificuldades de pensar. Até hoje tem coisas da minha infância que eu não sei se imaginei ou se vivi ou se me contaram. Na velhice, é a mesma coisa.

Por que a memória tem um papel tão importante na sua literatura?

Minha memória é uma forma de ter futuro. Ela não se relaciona só com o passado. Assim como o amor presente também altera os amores antigos. A gente altera o passado. O passado não é imóvel.

Você gosta de viajar no tempo da memória e da imaginação.

É o que me salvou.

Salvou do quê?

Do isolamento.

Você tinha tendência para se isolar?

Todos têm tendência de se isolar. Mas eu sou extremamente contagioso. Eu gosto de me contagiar. Sou viral nesse sentido. Acho que meu caminho era direcionado para o encolhimento, para a vergonha, para ficar encabulado. Para uma timidez sem recreio. E eu consegui trabalhar isso que é a exposição. A exposição me protege.

E aí contradiz aquela imagem do poeta ensimesmado, do poeta solitário.

Eu não me aguento muito tempo preocupado.

Mas ocupado sim. Você se isola para escrever?

Eu escrevo em qualquer lugar.

Não tem essa coisa do ritual de escrever?

O ritual de escrever não define minha literatura. O que define a minha literatura é o deslugar. A falta de lugar é o que faz escrever. Não é o lugar. Se você tem um lugar, você não vai escrever. Você está procurando um lugar.

Mudando de assunto, o governo paulista proibiu fumar em qualquer lugar fechado e quer proibir até quentão em festa junina. O que você acha disso?

Estão subestimando as pessoas a ponto de dizer que elas não podem decidir. A gente está deixando que o governo escolha por nós. A gente está numa fase em que não quer sofrer, não quer arcar com as consequências. O governo está dizendo que não temos qualidade mental para cuidar das nossas vidas.

Você acha que as pessoas estão se infantilizando?

É uma boa perspectiva. Elas estão se infantilizando. Porque elas nem questionam por ter um significado maior, que é a saúde.

E saúde para quê? O que será que as pessoas querem viver?

Não importa. O importante é ter saúde, não como você emprega essa saúde.

No seu blog, você escreveu que alguém tem de ter coragem de envelhecer neste mundo...

A gente não está preparado para o velho hoje. Que é um velho que envelheceu muito mais do que qualquer outro velho. Eu tenho 36 anos e parece que vivi séculos. A mudança abrupta da tecnologia nos fez envelhecer a ponto de estarmos com 30 anos e ficar com vontade de escrever nossas memórias. Nunca a autobiografia foi tão precoce. Escrevi a minha com medo de morrer antes.

Será que quando você chegar aos 72 anos vai escrever suas memórias de novo?

Não sei se vou ter esse capricho.

Será que você estará vestindo um fardão da Academia Brasileira de Letras?

Isso não é um objetivo de vida (pausa). Acho que posso pedir emprestado para o meu pai.

Você está para lançar o livro A Família Não é uma Empresa. Como é esse livro?

Vou comparar minha infância com a dos meus filhos. O livro trabalha com essa percepção de que a gente precisa ter um lugar para falir. Rivaliza com a autoajuda que trabalha a família como se fosse um negócio, e o filho, um empregado. É um livro para retrabalhar esse sentido de família, de convivência, de contar os problemas em casa.

O que falta nas famílias de hoje?

Falta o amadorismo do gesto, o amadorismo da conversa, a inconsequência do afeto. Eu quis trazer toda a minha infância junto da dos meus filhos para ver até que ponto a gente não está permitindo que as crianças tenham cicatrizes. O pai, hoje, acha que tem de sofrer no lugar do filho. A gente se torna velho no momento em que diz que nosso passado era melhor. Eu tentei fugir um pouco disso. Comparo, mas sem estabelecer o melhor, porque até o meu passado precisa ser alterado.

Pelas memórias.

Pelos meus filhos. Eles têm a capacidade de me reinventar, de me dizer algo que não fiz naquele tempo. A infância dos meus filhos é contemporânea da minha infância. Eles reparam atitudes, devolvem gestos, recompensam, me preparam para enxergar aquilo que eu queria esquecer. Me preparam para lembrar aquilo que eu precisava.

É como se você continuasse neles.

A paternidade é uma paciência consigo mais do que com os filhos. É isso o que a gente não entende. E eles sentem. Mesma coisa que botar uma criança para dormir querendo que ela durma logo a todo custo para poder fazer outras coisas. Eu me lembro que era um liquidificador com a primeira filha, a Mariana, que está com 15 anos. Fui aprender a virar chaleira com o Vicente.

Você se realiza sendo pai?

Meu sono mudou. A delicadeza mudou. Ser pai é se permitir a perder tempo. Por exemplo, eu e meu filho temos um país imaginário chamado Lídimo, que significa autêntico e verdadeiro. Então, a gente criou a bandeira, os estados, as capitais e as cidades e está criando o hino. É uma ilha perto da Oceania. O idioma é o português lido ao contrário.

Isso é perder tempo?

O que você perde em tempo você ganha em eternidade no teu filho, que é a sequência. O que o filho mais pede é a sequência. Que aquela história que você leu no dia anterior tenha sentido no dia seguinte. É se importar com o lembrar.

Paulínia divulga selecionados em edital de cinema

O secretário de Cultura de Paulínia, Emerson Alves, anunciou na sexta-feira, dia 10 de julho, os 10 filmes selecionados no Edital do Concurso 01/2009 que irão receber investimentos de R$ 5.700 milhões para produções rodadas este ano e R$ 3.300 milhões para as filmagens previstas para 2010, totalizando R$ 9 milhões, além de 10 suplentes.
O anúncio foi feito em coletiva de imprensa que contou com Mário Diamante, presidente interino da Agência Nacional de Cinema (Ancine), do curador do Festival Paulínia de Cinema, Rubens Ewald Filho, além do presidente do evento, Ivan Melo. Em outubro, a Prefeitura de Paulínia publicará novo edital.
Segundo o titular da Cultura, foram inscritos 44 projetos, dos quais 20 foram selecionados para expor seus projetos. Entre os requisitos desejados, estavam a inclusão de locações e da mão-de-obra da cidade, especialmente de profissionais formados pela Escola Magia do Cinema, que faz parte do Pólo Cinematográfico de Paulínia. Para exemplificar, no ano passado, cada produção abriu em média de 300 a 400 vagas diretas para profissionais como montadores de cenário, figurantes, assistentes de produção, elenco, entre outros, que foram qualificados na escola.
Conhecida como o maior polo petroquímico da América Latina, Paulínia ousa no projeto cinematográfico e investe em mais quatro estúdios, que, segundo o secretário Emerson Alves, serão lançados a partir de janeiro de 2010.

Abaixo, os contemplados:

Nos termos da Seção VIII do Edital do Concurso 01/2009 foram selecionados para filmagem no exercício fiscal de 2009:


1) As Vidas de Chico Xavier – Lereby Produções LTDA – R$ 1.500.000,00 (hum milhão e quinhentos mil reais). Direção: Daniel Filho

2) Filme de Estrada – Bananeira Filmes – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais). Direção: Selton Mello

3) Meu País – Sombumbo Filmes LTDA – R$ 700.000,00 (setecentos mil reais). Direção: André Sturm

4) Doce Veneno do Escorpião – TV Zero – R$ 700.000,00 (setecentos mil reais). Direção: Marcos Baldini

5) Doze Estrelas – LAP Filmes – R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais). Direção: Luiz Alberto Pereira

6) Transeunte – Vídeo Filmes Produções Artísticas – R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais). Direção: Eryk Rocha

7) Trabalhar Cansa – Dezenove Filmes – R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais). Direção: Marcos Dutra e Juliana Rojar

Total do Apoio Financeiro para 2009: R$ 5.700.000,00 (cinco milhões e setecentos mil reais).

Completam a seleção de projetos, com cronograma de desembolso e filmagem para o exercício de 2010:

8) Corações Sujos – Radar Cinema e Televisão LTDA – R$ 1.500.000,00 (hum milhão e quinhentos mil reais). Direção: Vicente Amorim

9) À Beira do Caminho – Conspiração Filmes – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais). Direção: Breno Silveira

10) Sex Delícia – Morena Filmes – R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais). Direção: Roberto Santucchi

Total do Apoio Financeiro para 2010: R$ 3.300.000,00 (três milhões e trezentos mil reais)

Compreendem projetos suplentes, de acordo com o cronograma de execução dos projetos selecionados:

A Última Estação – Asacine – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Corda Bamba – SP Filmes – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Pulsar – Onde Está a Felicidade – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Apolo – Reis do Futebol – Fraiha Produções de Eventos e Editora LTDA – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Quase Memória – J. Sanz Produções Audiovisuais – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

A Primeira Missa – Crystal Cinematográfica – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Entre Vales e Montanhas – Pólo de Imagem LTDA – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

America, Americana – Ramalho Filmes – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

Projeto Syndrome – TLC – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

Alto da Bronze – Raiz Produções – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De volta ao pedestal


“Nem vem que não tem/Nem vem com garfo que hoje é dia de sopa/ Esquenta o ferro/Passa a minha roupa.” Quem não se lembra desses versos cantados de um jeito todo malandro no filme Cidade de Deus, na cena em que um grupo assalta uma loja de armas, no Rio de Janeiro? A música, composta por Carlos Imperial e interpretada por Wilson Simonal, fez parte de um gênero que não durou muito tempo: a pilantragem, termo cunhado pelo próprio Imperial e representado com muito estilo pelo cantor, que não fazia gênero bom moço.
Artista de grandes recursos, bonitão e cheio de banca, Simona (como também era conhecido) sabia como dominar plateias imensas e, rapidamente, conquistou muito sucesso e dinheiro. Filho de empregada doméstica e ex-cabo do Exército, o cantor desfilava pelo Rio de Janeiro com roupas caras, a bordo de conversíveis, totalmente alheio ao momento político delicado pelo qual o País passava no final dos anos 60, quando recrudesceu a perseguição política aos artistas e intelectuais. Por essa e por outras, provocou muita inveja e desconfiança, e acabou se envolvendo em uma polêmica que o tirou do pedestal.
A carreira e a vida do cantor condenado ao esquecimento quando teve o nome associado à ditadura são resgatadas no sensacional documentário Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei, dirigido pelo “Casseta” Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, virou mania nas salas do Rio de Janeiro e São Paulo.
O filme foi exibido em diversos festivais no ano passado — quando fez 70 anos do nascimento de Simonal — e venceu o 1º Paulínia Festival de Cinema como melhor documentário, na eleição dos júris oficial e popular.
Muito do sucesso do longa se deve a três fatores: à montagem moderna, em ritmo de videoclipe, com o uso de vinhetas cheias de grafismos e animações psicodélicas para separar as várias fases da carreira; às imagens de arquivo, que revelam a exuberante performance do cantor às novas gerações; e aos depoimentos de personagens imprescindíveis para se reconstruir a grandeza de Simonal como artista e as fraquezas dele como pessoa — entre os entrevistados, estão Luiz Carlos Miéle, Jaguar, Ziraldo, Nelson Motta, Chico Anysio, Pelé, Tony Tornado, e claro, com os filhos do artista, os também cantores Max de Castro e Simoninha.
Mas a maior contribuição da obra foi jogar luz sobre o episódio que levou o cantor a ser considerado informante dos militares — delito que ele negou até morrer de cirrose, em 2000, aos 62 anos, após tomar um porre de ostracismo. Fruto de verdadeiro trabalho de jornalismo investigativo, os diretores conseguiram desencavar um personagem crucial, 40 anos depois do triste episódio, a fim de esclarecer o que, afinal, aconteceu para a esquerda e a imprensa brasileiras concluírem que Wilson Simonal era espião da ditadura.
Apesar do clima de pesar que toma conta do filme ao repassar os motivos que levaram o artista à decadência moral e financeira, Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei é recheado de momentos maravilhosos, como quando ele faz um dueto com Sarah Vaughan, cantando em inglês perfeito (apesar de não saber falar a língua) e histórias deliciosas e muito engraçadas, protagonizadas pelo dono de uma das vozes mais bonitas da música brasileira, talvez, a maior voz de todos os tempos.

Um sujeito perguntador


As sobrancelhas grossas e os olhos diminutos de João Miguel marcaram de diversas maneiras o cinema brasileiro: ele foi Ranulpho, um sertanejo turrão em Cinema, Aspirinas e Urubus; João, o ex-namorado da prostituta Hermila em O Céu de Suely; Raimundo Nonato, migrante nordestino que vira cozinheiro em Estômago; e um pai violento em Mutum.

Nascido em Salvador, com passagens pelo Rio de Janeiro e João Pessoa antes de radicar-se em São Paulo, Miguel representa com a mesma graça e verdade as agruras do homem do sertão ou da metrópole. “Acredito em um cinema humanista e em um teatro que possam trazer à tona questões que tenham a ver com o nosso tempo”, diz.

Nas artes cênicas, se destacou como o palhaço Magal (criado em 1989, sob orientação de Luiz Carlos Vasconcelos) e, principalmente, como Arthur Bispo do Rosário, no monólogo Bispo, dirigido por Edgard Navarro, que percorreu o Brasil durante cinco anos, e que lhe valeu o convite para protagonizar o primeiro longa-metragem, Cinema, Aspirinas e Urubus, em 2005.

Este ano, Miguel completa três décadas de uma carreira iniciada aos 9 anos de idade. Formado ator em 1989, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, viveu dois anos na Paraíba, como integrante do Grupo Piolim. Sobre essa experiência, está escrevendo o roteiro do filme que pretende dirigir em breve.

Foi também na Paraíba que conheceu o Lume Teatro, de Campinas, que o convidou para falar sobre o ator no cinema, no dia 9 de fevereiro, uma segunda-feira, em debate dentro do projeto Terra Lume. Antes, o ator recebeu a reportagem para o bate-papo a seguir:

Foi depois do monólogo Bispo que você recebeu o convite do diretor Marcelo Gomes para atuar em Cinema, Aspirinas e Urubus, que lhe deu o primeiro prêmio como ator. Você deve isso à sua trajetória no teatro?

João Miguel — Eu cheguei a fazer cinema com a mesma paixão que eu fazia teatro, me adaptando no fazer com a diferença da linguagem. Acho que a paixão é fundamental. O Marcelo Gomes viu isso. Tive oportunidade de fazer um cinema mais autoral, um cinema parecido com o teatro que eu fazia. Eu pude colaborar, questionar. A figura do ator não estava tão amarrada ao personagem. Tive a possibilidade de recontar, de colocar o texto na minha boca. Sempre trabalhei com diretores que tinham essa marca. Eu venho do teatro de indagação, de investigação dentro do trabalho do ator e de apaixonamento sobre o personagem. Eu fiz o espetáculo do Bispo durante cinco anos. Foi um divisor de águas muito importante.

O ator vindo do cinema pode fazer teatro tão bem quanto no cinema?

Uma coisa que eu evito na vida é o rótulo, a catalogação, então, eu acho que não tem uma regra para nada. É possível tudo a partir da sua trajetória.

Estou perguntando isso porque o teatro depende muito do trabalho do ator, enquanto que o cinema, do diretor.

Isso não é uma verdade absoluta. O ator leva o seu registro para o cinema e aquilo vai imprimir muito porque a câmera pega tudo. Até o que você não quer mostrar. É óbvio que eu encaro o teatro como uma base, a minha base. Eu faço desde os 9 anos. Depois eu tive oportunidade de encontrar homens de teatro que são referências, como o (grupo) Lume, que te ajudam a buscar essa base, essa formação. Essa busca existiu durante muito tempo sem eu estar exposto para a mídia. Quando surgiu a oportunidade de fazer cinema, eu já tinha uma base construída.

Você acha que ter nascido e crescido em Salvador e depois vivido em João Pessoa te manteve um pouco afastado da mídia?

Talvez. Mas eu tenho tendência, sempre, mesmo morando em São Paulo, de me aquietar e fazer minhas perguntinhas, que são fundamentais.

Ao conhecer o Lume Teatro, em João Pessoa, você fez alguma oficina com os atores?

Fiz com o Ricardo Puccetti. Foi a primeira pessoa que conheci do Lume. É um ator que eu admiro profundamente. Admiro o grupo como um todo. O que significa Barão Geraldo também, dentro do Brasil. É muito sério esse movimento, mesmo sendo tão espontâneo. É um movimento feito por quem é apaixonado pelo ofício de ator.

Por causa do filme Estômago, muita gente passou a achar que você sabe cozinhar. O que você faz bem na cozinha?

Como (risos).

Quantos longas você fez?

Eu tenho 13 longas no currículo. Cinema, Aspirinas e Urubus foi meu primeiro filme. Depois teve Cidade Baixa (de Sérgio Machado); Eu Me Lembro, do Edgard Navarro; Mutum (de Sandra Kogut); Deserto Feliz (de Paulo Caldas); Estômago (de Marcos Jorge); Jardim das Folhas Sagradas, que não entrou em cartaz ainda, do Pola Ribeiro; Hotel Atlântico, da Suzana Amaral, que também ainda não entrou em cartaz; Se Nada Mais Der Certo (de José Eduardo Belmonte), que ganhou o Festival do Rio (de 2008) e Bonitinha Mas Ordinária, de Moacyr Góes (inédito).

Você tinha 9 anos quando começou a trabalhar como apresentador de um programa de televisão?

Comecei aos 9 anos com uma peça de teatro chamada A Viagem de um Barquinho. Foi aos 10 anos que eu apresentei um programa de televisão, que era dirigido por Nonato Freire, um tropicalista baiano.

Como surgiu a oportunidade?

Eu morava no prédio de uma atriz baiana maravilhosa, chamada Nilda Spencer, que morreu recentemente. Ela era amiga dos meus pais e o Nonato era amigo dela. Ela falou de mim para ele. Eu vivia pelos corredores do prédio vestindo personagens.

Qual era o nome do programa?

Chamava Bombom Show. Durou um ano. Era tão bom que durou pouco. Depois quiseram me contratar para o SBT. Eu não quis.

Você queria seguir no teatro?

Não, naquela época você não tem opinião tão formada. Só sabia que não queria uma coisa muito séria. E no programa eu me divertia muito.

Você entrevistou o Glauber Rocha e a experiência resultou em um episódio engraçado em que você diz a ele “que vai perguntar uma pergunta” e ele que vai lhe “responder uma resposta”.

É, e aí eu disse “Ih rapaz, fiz alguma coisa errada” e ele respondeu, “não, está tudo certo” (risos). Eu não me lembro nada de pergunta alguma. Só não me esqueço da figura dele. Muito forte. Entrevistei também a Irmã Dulce.

Em 2009 você completa 39 anos de idade. São 30 anos de carreira. Que balanço você faz?

Acho que nesses 30 anos teve também muito espaço para perguntas, para o tempo passar e eu nunca deixar de me exercitar. Eu tenho o ofício do teatro como um caminho mesmo, um espaço onde o ator pode existir. Hoje, eu acredito em um cinema humanista e em um teatro que possam trazer à tona questões que tenham a ver com o nosso tempo. Acho que tem uma espécie de coerência na minha caminhada. Tem um amigo meu que diz que você não pode plantar feijão e colher arroz. É muito legal poder dialogar com essa ideia de mercado mas também entender o que você quer dizer e como você pode contribuir.

Você conhece bem o sertão.

Mas eu também sou superurbano. Agora, a tendência é a de eu começar a fazer personagens mais urbanos.

Eu ia perguntar justamente se você não tinha receio de cair no estereótipo do migrante nordestino.

Tive, algum tempo, porque fui muito convidado só para fazer o sertanejo, o nordestino. Acabei de fazer Bonitinha Mas Ordinária, baseado na obra do Nelson Rodrigues, e é um personagem totalmente urbano, do Rio, com a Leandra Leal fazendo Bonitinha. No próprio Se Nada Mais Der Certo, que estará estreando em breve, eu faço um personagem urbano. Acho que no cinema brasileiro há uma tendência de dialogar com uma memória e uma atitude que tenham a ver com esse universo mais urbano, que me pertence também. Estou há seis anos em São Paulo.

Como é sua relação com Salvador?

É uma relação de muito amor. Sou muito agradecido à cidade, que me formou de alguma maneira. É uma cidade de rua, de negros, com uma herança africana muito forte. Uma cidade que tem muita festa de largo. A lógica da rua influencia muito meu trabalho. Sou muito observador. Construo personagens a partir da observação da realidade, de perceber onde que está aquele personagem no meu dia a dia. O cinema me dá oportunidade de viver pequenos exílios de interiores, de poder viajar e conhecer outros lugares que eu não conheceria se não fosse o cinema. De entrar em contato com o Brasil. Eu tenho sede de pensar o Brasil sem levantar bandeira, mas com um sentimento de pertencimento.

Mas você ainda toparia fazer personagens nordestinos?

Não tenho preconceito em relação ao Nordeste ou ao sertão. O problema é a catalogação que os outros fazem. Não vou deixar de fazer filmes com diretores que eu acredito, quando estão falando coisas que eu acredito. Agora eu vou fazer (o filme) A Hora e a Vez de Augusto Matraga (da obra de Guimarães Rosa, sob direção de Vinícius Coimbra), que fala do sertão, mas que é o Brasil e o mundo. Falar do sertão profundo é falar do Brasil.

Você morou dois anos na Paraíba. Por quê?

Fui para lá com o Grupo Piolim. Ficamos na tentativa de construir um novo espetáculo. Mas que foi genial, um período muito bom. Hoje eu escrevo o roteiro de um filme que vou dirigir que se baseou nesse período que fiquei lá. É um projeto de médio prazo. Estou escrevendo o roteiro com a Manoela Dias.

Virou uma tendência atores brasileiros dirigirem longas.

Assim como eu fiz o Bispo de uma maneira bastante autoral (pausa) eu tenho necessidade de dizer algo assim também no cinema.

Você vai relembrar os dois anos em que ficou em João Pessoa?

É uma história específica. Prefiro não contar muito, mas é baseada em coisas que eu vivi lá.

Teve um outro grupo na sua vida, Los Catedráticos.

Um grupo baiano. A gente fazia sátiras das músicas de axé music. Foi o maior sucesso. Eu fiquei um ano e meio no grupo. Tem alguns outros grupos que eu contribui, como o Cia Elétrica Fernando Guerreiro. Teve um grupo de formação que fez parte da minha adolescência, chamado Tantas e Tamanhas, com o qual eu fiz teatro educacional e viajei muito pelo interior.

Você tem projetos para a televisão?

Quase que eu ia fazer uma novela agora. Não rolou porque eu tinha compromisso com (A Hora e a Vez de Augusto) Matraga. Novela não é um veículo que me oponho a dialogar, é importante e popular e, querendo ou não, é um dos poucos veículos que para o ator funciona como indústria. Queria muito que o cinema virasse isso. Minissérie eu fiz várias. Foi o que mais fiz, como participações duas vezes em A Grande Família. É muito bom porque você tem oportunidade de exercitar a troca rápida com os atores e de ver bons atores de televisão em ação.

Quando você vai fazer 39 anos?

No dia 20 de março. Estou estreando uma peça no dia do meu aniversário. Se chama Só. É o segundo monólogo que faço depois de Bispo. Também fiquei muito tempo fazendo Magal, que é meu palhaço, sozinho. Então, acho que eu estou construindo alguma coisa para falar dessa solidão de hoje.

Alguma crise à vista, por estar próximo dos 40?

A crise é constante. Eu sou muito perguntador.

RÓTULO

“Não tenho preconceito em relação ao Nordeste ou ao sertão. O problema é a catalogação que os outros fazem.”

PALCO

“Tive oportunidade de encontrar homens de teatro que são referências, como o grupo Lume.”

Ensina-me a viver


Quando a morte encontra a literatura, que histórias ela nos conta? Surpreendentemente, nos fala da vida e das coisas simples que demoramos a perceber como importantes. A contradição é que, apesar de fugirmos do assunto como o diabo da cruz, somos atraídos a ele por meio da literatura - talvez com o secreto desejo de aprender como se vive após uma grande perda.

O exemplo mais recente de literatura sobre o luto, no Brasil, vem da mineira Cristiana Guerra. Nascida em 1970, essa publicitária de Belo Horizonte transformou a perda do companheiro e pai do único filho no livro Para Francisco (Editora Arx/Saraiva, 192 páginas, R$ 29,90), lançado em novembro de 2008, como resultado do bem-sucedido blog homônimo (www.parafrancisco.blogspot.com
É para o filho, Francisco, que ela escreve. O filho que carregava no ventre havia seis meses quando o companheiro, Guilherme Fraga, morreu subitamente, aos 38 anos de idade, em 2007. Dois meses depois, no mesmo ano, ela ganhou o bebê. "Escrevi para não esquecer" , ressalta no texto que abre o livro. A estrutura da obra segue a do blog: é dividida por datas e reproduz fotos e imagens, e ainda traz as mensagens trocadas por e-mail entre o casal.

Ao tentar lidar com sentimentos antagônicos provocados pela dor da perda e a alegria do primeiro filho, Cristiana fez literatura, e de qualidade. "Eu acho que dor e literatura são grandes amigos. A gente escreve melhor no meio da tristeza" , reflete a autora na entrevista que concedeu ao Caderno C, por e-mail.

Com um texto poético e longe de ser pessimista, o livro não resvala na autoajuda, apesar de alertar, por exemplos da própria autora, sobre a importância de sentir a vida intensamente, até em pensamento, ao rememorar histórias saborosas - e algumas amargas - envolvendo pessoas queridas que se foram. A perda de Guilherme é o ponto de partida para Cristiana falar também dos pais e avós.

Mas, ao fugir da armadilha da autocomplacência, a autora cai em outra, preparada pelos leitores - do blog e do livro: muitos a celebram como uma supermãe e mulher, mas, como ela mesma avisa, "não é nada disso" . "Continuo sendo a mesma pessoa, com desafios semelhantes aos anteriores, um filho para criar sozinha e coisas normais da vida como momentos de medo e solidão, cansaço e desespero" .

Sim, a autora sofreu muitas perdas - durante o primeiro casamento, abortou duas vezes - e experimenta profundamente e publicamente o luto, mas é no presente e na alegria de viver que ela finca a sua literatura. Afinal, é para Francisco, o filho que está apenas no começo dessa linda, assustadora e breve viagem chamada vida, que ela escreve.

‘Queria gritar para o mundo sobre minha dor’

Autora fala sobre decisão de tornar público um sentimento íntimo e pessoal

Cristiana Guerra tem um jeito atrevido de encarar a vida. Com várias tatuagens pelo corpo, cabelo curtinho arrepiado e um figurino moderno - fruto de sua paixão por moda - ela não tem medo de expor seu modo de ser, vestir e pensar. Tanto, que mantém três blogs.

Além de Para Francisco, ela posta para Hoje Vou Assim (www.hojevouassim.blogspot.com), no qual ela revela, diariamente, a roupa que usa para ir trabalhar; e Filé Pra Quem é Mignon (filepramignon.blogspot.com), um bazar virtual com peças do seu guarda-roupa, para quem é miúda como ela.

Depois da publicação em livro do blog Para Francisco, ela agora enfrenta uma superexposição a que não estava acostumada, mas dá para notar, pelas últimas postagens e pelo tom da entrevista abaixo, que ela não perdeu a ternura.

Você começou a escrever as cartas em memória ao seu companheiro para um leitor em especial, seu filho, por que resolveu torná-las públicas?

Eu queria gritar para o mundo sobre a minha dor. Escrevia para o Francisco, sim, pois quando entendi que era pra ele que eu precisava escrever, uma parte da dor começou a se resolver em mim. Mas eu também precisava deixar essa experiência exposta, ao alcance de mais pessoas, embora eu achasse que ninguém ia descobrir os meus escritos, que talvez os amigos visitassem o blog e só. Sabe quando a gente quer gritar o que tá sentindo num lugar grande, onde o eco seja bem forte? Era mais ou menos isso. Eu não pensei, apenas fiz, sem pensar. Hoje, vejo que precisava dessa catarse.

Como você acha que foi possível a literatura nascer de uma dor tão aguda?

Eu acho que dor e literatura são grandes amigos. A gente escreve melhor no meio da tristeza. Mas não era só um momento de dor. Era um momento em que eu vivenciava muitas emoções intensas, simultaneamente. Emoções novas e de um significado absurdo na minha vida. Eu precisei escrever (e nem pensei estar fazendo literatura) para entender, para guardar, para dar conta dos sentimentos opostos (a perda do amor e o ganho do filho). Escrevi para que cada emoção tivesse o seu lugar, para que uma não engolisse a outra, pois as duas precisavam ser vivenciadas.

Que tipo de conforto a literatura tem lhe trazido?

Saber que consegui de alguma forma me expressar já é um grande conforto. Ler um texto produzido no meio desse turbilhão e descobrir que consegui me comunicar com outras pessoas, tocar alguém, é um alento e tanto. Eu acho que as palavras nunca vão ser suficientes para expressar o que sentimos. E isso é o mais bonito: a gente vai estar sempre tentando, e essas tentativas vão produzir textos tocantes, sensíveis, bem escritos ou, quem sabe, universais. A sensação de que consegui me comunicar com muitas pessoas através dessa literatura não tem preço.

Quais transformações o blog Para Francisco e sua publicação em livro fizeram em sua vida?

Em primeiro lugar, o blog e o livro foram a cura do meu luto. Graças ao blog (tendo o livro como fechamento simbólico de um ciclo) eu me expressei exaustivamente e não ficou nada para trás. Eu me resolvi escrevendo. Gastei a minha dor, literalmente. Sobrou a alegria de ter Francisco, e sobrou mais fresca, do jeito que ela merece ser vivida. Se não fosse pelo blog, acho que eu seria uma pessoa amarga. Em segundo lugar, descobri uma escritora dentro de mim. Se ela vai crescer ou não, só o tempo dirá. Em outros aspectos houve muita troca, a sensação de estar fazendo algo de bom que atinge outras pessoas, fora o carinho imenso que recebo há quase dois anos. É uma transformação e tanto, embora eu continue sendo a mesma pessoa, com desafios semelhantes aos anteriores, um filho para criar sozinha e coisas normais da vida como momentos de medo e solidão, cansaço e desespero. Para mim, o blog tem esse significado. Para os outros, acredito que ele acabe passando uma imagem exagerada de uma supermãe e mulher muito forte. E não é nada disso.

Até quando você pretende alimentar o blog?

Enquanto for possível. A vida continua e outras coisas vão entrando, fazendo parte, tomando seu tempo. Por isso tenho escrito pouco, mas pretendo retomar e não largar nunca. Quero escrever para meu filho, para mim, para os leitores, continuar escrevendo. Porque a vida sempre vai me dar motivo para refletir sobre alguma coisa. Mas confesso que nos últimos dois meses estou bem sumida. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Que tipo de experiência ou lição você percebe que o público busca ao acessar o blog ou adquirir o livro?

Acho que as pessoas buscam consolo por terem tido alguma perda, ou acham o blog ou o livro por acaso, sem ter tido nenhuma perda, e se surpreendem com o que existe ali de celebração do hoje. Acho que o que me moveu a escrever foi principalmente uma vontade de dizer para o mundo (e para o meu filho, como ponto de partida) que a gente leva uma vida para descobrir que as coisas mais importantes são as mais simples e mais cotidianas, as que a gente tem hoje, e que muitas vezes não valoriza. Acredito que as pessoas encontrem isso no livro e no blog.

Você alimenta projetos de continuar escrevendo livros?

Tenho esse projeto humildemente guardado no coração. Mas ainda não estou trabalhando nisso. Preciso descobrir um caminho e venho de 2 anos muito intensos. Meu filho está no auge do crescimento, falando, aprendendo, minha vida entrando nos eixos, o trabalho a mil por hora, fora o meu blog de moda (www.hojevouassim.blogspot.com). No meio disso tudo, ainda não descobri um caminho. Mas não há pressa.

Quais os livros mais importantes de sua vida?

Pode parecer incrível, mas eu li e leio muito menos do que gostaria, talvez por ter passado parte da vida com uma urgência constante de me expressar. Alguns livros que me marcaram: o Grande Sertão (Veredas), do Guimarães Rosa, Histórias de Cronópios e de Famas, do Júlio Cortázar, O Menino no Espelho, do Fernando Sabino, e vários textos curtos da Clarice Lispector, principalmente os que estão compilados no livro A Descoberta do Mundo. Li Carta a D., do André Gorz, recentemente, e me tocou muito, talvez por ter a ver com o aspecto particular do livro que eu estava colocando nas livrarias.

A FRASE

“A gente leva uma vida para descobrir que as coisas mais importantes são as mais simples e mais cotidianas, as que a gente tem hoje, e que muitas vezes não valoriza.” Cristiana Guerra, autora do blog e do livro Para Francisco

Outros títulos

Livros com histórias verídicas de perda e superação são sucesso em várias partes do mundo. Três títulos recentes são prova disso: O Ano do Pensamento Mágico, A Lição Final e Carta a D. - História de um Amor, que foram bem recebidos pelo público e pela crítica.

O primeiro, lançado em 2006 no Brasil, com 222 páginas, pela Nova Fronteira, é de autoria da escritora e jornalista norte-americana Joan Didion. Apesar de consagrada pela crítica, ela não era sucesso de público até publicar o livro em que narra em detalhes a perda do marido, o também escritor John Gregory Dunne, que teve um ataque cardíaco fulminante em 30 de dezembro de 2003.

Na busca por títulos literários e outras fontes que tratassem sobre o luto para escrever O Ano do Pensamento Mágico, Joan descobriu que a literatura sobre o assunto ainda é escassa.

Em A Lição Final (Ediouro, 240 páginas, 2008), é também para os filhos que o professor de ciência da computação Randy Pausch (1960-2008) se dirige, com a ajuda de Jeffrey Zaslow, co-autor do livro. Ao enfrentar um câncer maligno, ele deu sua última aula na Universidade Carnegie Mellon, em setembro de 2007 - a aula foi gravada e vista por milhões de pessoas no YouTube. Nela, em vez de falar sobre a experiência da doença, Pausch alerta sobre a importância de se viver plenamente.

Publicado originalmente em 2006, Carta a D. - História de um Amor só chegou ao Brasil no ano passado, pelas editoras Annablume e Cosac Naify. Escrito pelo filósofo marxista-existencialista André Gorz, faz um breve mas incisivo relato sobre a perda da mulher, a inglesa Dorine Kerr, vítima de doença degenerativa. Austríaco radicado na França, Gorz sintetiza, em apenas 80 páginas, os 54 anos de um amor que sobreviveu a muitas revoluções - íntimas e políticas. Apesar de não ser um tema muito comum, o luto continuará inspirando grandes obras ao longo dos séculos.

Sob o signo do corvo


A sombra e o mistério sempre pairaram sobre a vida e a obra do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), autor de famosos contos de terror, mistério e morte e de poemas obscuros como O Corvo (The Raven), de 1845, traduzido por Fernando Pessoa e por Machado de Assis, só para citar os mais ilustres da nossa língua. A despeito da trajetória tortuosa, cercada de perdas, loucura, paixões platônicas, peregrinação por cidades e empregos e luta por reconhecimento, Poe deixou uma “prole” importante: críticos mais fervorosos o consideram o pai do romance policial, da ficção científica, da poesia simbolista e da nova crítica literária norte-americana.

Entre seguidores e escritores que ele teria influenciado estão Júlio Verne, Arthur Rimbaud, Paul Valéry, Charles Baudelaire e Fiódor Dostoiévski. Nascido no dia 19 de janeiro de 1809, cinco cidades dos Estados Unidos comemoram o bicentenário de nascimento do poeta, contista, romancista, crítico e editor com uma série de homenagens, entre elas, o tributo feito pelo ator John Astin, que vive o personagem Gomez Addams na série de televisão Família Addams, na cidade de Baltimore, em Maryland, onde Poe morreu há quase 160 anos (que também serão lembrados em outubro deste ano). Nada mais apropriado.

As demais cidades são Boston, em Massachusetts, onde Allan Poe nasceu e nunca mais voltou; Richmond, no estado de Virgínia, onde cresceu; Filadélfia, cidade em que criou as obras mais conhecidas; e Nova York, cenário do seu sucesso literário.

Tudo indica que o esforço das cidades em torno das homenagens a Poe pode render aspectos ainda mais bizarros à já estranha trajetória do escritor — que teria forjado a própria biografia. Pois um acadêmico americano, Edward Pettit, defende a necessidade de se exumar os restos de Poe, em Baltimore, para enterrá-los na Filadélfia, onde o autor teria escrito suas obras mais importantes. Pettit, claro, comprou briga com Jeff Jerome, curador da Poe House and Museum, em Baltimore.

A cidade em que o escritor viveu aos vinte e poucos anos, e morreu, aos 40, se supera nas homenagens. O time de futebol de Baltimore se chama Ravens (corvos) e, anualmente, há bastante tempo, um fã anônimo deixa uma dose de conhaque e três rosas vermelhas no primeiro túmulo do escritor — em 1875, seus ossos foram transferidos para outro local do cemitério próximo à igreja de Westminster Hall.

A igreja também será cenário, em outubro deste ano, da encenação do funeral de Poe, com uma réplica de seu corpo. O evento pretende dar ao poeta o funeral que ele merece e não teve, quando morreu quatro dias depois de ter sido encontrado semiconsciente por um amigo, em uma taberna de Baltimore, vestindo roupas que não eram as suas.

Inicialmente incompreendida em seu país, a obra de Poe foi acolhida com entusiasmo pelos poetas simbolistas franceses, sobretudo pelo autor de Flores do Mal, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867), que traduziu para o francês O Corvo e vários outros poemas e contos, além de escrever o Ensaio Sobre Edgar Allan Poe (1852).

TRECHO*

“(...) Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”. (...)

*Trecho extraído de O Corvo, com tradução de Fernando Pessoa

Filho de atores, escritor que ficou órfão aos 2 anos sofreu com o alcoolismo

Nascido Edgar Poe, em Boston, nos Estados Unidos, filho de jovens atores de teatro, o futuro escritor ficou órfão aos 2 anos de idade. Foi criado por um John Allan, rico comerciante de Richmonde, em Virgínia, que o enviou para a Europa a fim de lhe proporcionar uma educação clássica.

Entre 1815 e 1820, Poe vive entre a Escócia e a Inglaterra.

De volta aos Estados Unidos, entra para a Universidade da Virgínia, onde envolve-se com jogos e álcool até romper relações com seu tutor, em 1827. No mesmo ano, publica, em Boston, o primeiro livro de poesia, Tamerlão e Outros Poemas.

Tenta carreira militar em West Point, mas é expulso. Ao decidir trabalhar somente com literatura, muda-se para a casa de uma tia, em Baltimore, onde publica contos em revistas. Em 1833, recebe um prêmio em dinheiro por seu Manuscrito Encontrado em uma Garrafa. Dois anos depois, em Richmond, torna-se editor do Southern Literary Messenger e casa-se com a prima Virgínia Clemm, de 13 anos de idade.

Demitido por causa do alcoolismo, vai morar em Nova York, onde escreve diversos contos policiais e de horror. Paralelamente, produz críticas literárias e ensaios sobre estética e teoria literária. Com a morte da mulher, em 1847, afunda-se ainda mais na dependência alcoólica.

Em setembro de 1849, prestes a se casar novamente, desaparece por vários dias, até ser reencontrado por um amigo em Baltimore, no dia 3 de outubro, em estado delirante. Quatro dias depois, morre em um hospital. Suas últimas palavras teriam sido: “Senhor, ajudai minha pobre alma”.

SAIBA MAIS

Algumas obras de Edgar Allan Poe:

POESIA

O Dormente (1831)
Lenore (1831)
Annabel Lee (1849)
O Corvo (1845)

CONTOS

Manuscrito Encontrado em uma Garrafa (1832)
A Queda da Casa de Usher (1839)
Os Assassinatos na Rua Morgue (1841)
O Mistério de Marie Rogét (1842-1843)
O Poço e o Pêndulo (1842)
O Escaravelho de Ouro (1843)
A Carta Roubada (1844)
O Barril de Amontillado (1846)

Odisseia de um dia


O que um dia na vida de um agente publicitário de Dublin, na Irlanda do começo do século 20, teve de especial para virar uma data até hoje lembrada em várias partes do mundo, inclusive em São Paulo? Um dos personagens mais celebrados da literatura, Leopold Bloom é um judeu de meia-idade que virou o arquético do anti-herói moderno ao ter seu universo interior ricamente detalhado por James Joyce no romance Ulisses, de 1922 — ironicamente, o título referencia o herói clássico da Odisseia, de Homero, a obra que fundou a literatura ocidental.

O dia em questão é 16 de junho de 1904. Em um resumo bem superficial, Bloom toma café, vai trabalhar, marca presença no enterro de um amigo e depois fica perambulando por bibliotecas, pubs e bordéis de Dublin até voltar para casa de madrugada, onde encontra a mulher, a cantora Molly, dormindo, e lhe acorda com um pedido incomum: que, ao amanhecer, lhe traga o café na cama — coisa que ele fizera à mulher durante 11 anos, desde a morte do filho, Rudy.

Pois é em homenagem a este que é considerado o romance mais representativo do século 20 — escrito originalmente em inglês — que fãs de diversos países se reúnem sempre no dia 16 de junho. É o chamado “Bloomsday” ou o "Dia de Bloom", uma data criada para que os leitores de Joyce pudessem reler e debater o livro.

Em 2009, faz 105 anos da data e Dublin está em festa, afinal, a cidade é o cenário pelo qual Bloom transita ao longo das 18 horas que tem sua alma dissecada no romance. Quem se aventura pelas quase mil páginas do livro vai descobrir que 16 de junho de 1904 foi um dia atribulado na vida do personagem, que naquela tarde conhece o jovem professor de história Stephen Dedalus, com quem busca algum sentido para a vida — Dedalus é o alter ego de Joyce desde seu romance anterior, o também celebrado Um Retrato do Artista Quando Jovem (1916).

Como escreveu a tradutora e pesquisadora da obra do escritor irlandês, Bernardina da Silveira Pinheiro, na apresentação da edição da Alfaguara: “Realmente tudo acontece naquele bendito dia 16 de junho de 1904: nascimento, morte, frustração, alegria, rejeição, traição, prazer, masturbação, menstruação, tudo, enfim, que um ser humano vivencia. Ulisses é, na realidade, uma extraordinária comédia humana”.

A data não era aleatória para Joyce: foi o mesmo dia e ano que Nora Barnacle, mulher do escritor, o “transformou em homem”, conforme ele assumiria em uma carta, anos mais tarde.

Paródia sofisticada

Mas o que faz um personagem aparentemente banal como Leopold Bloom ser, ainda hoje, tão celebrado? A resposta está na forma e na linguagem sobre as quais o escritor irlandês labutou durante sete anos para narrar o dia na vida de um homem. Ulisses faz uma paródia sofisticada da Odisseia, de Homero, mas com uma escrita repleta de coloquialismos, enigmas, jogos de palavras, citações de obras (inclusive de Shakespeare) e uso de vocábulos latinos, hebraicos, franceses, irlandeses, italianos, espanhóis e alemães, fazendo com que a obra ganhasse fama de difícil.

Para a especialista em história da literatura Thaís Manzano Ulisses é daqueles livros que “exigem leitor inteligente, que organize a narrativa”. Além da linguagem revolucionária, a obra inovou ao abandonar a narrativa linear para trabalhar com o fluxo de consciência por meio do monólogo interior das personagens — características que inauguraram o romance moderno. Desse modo, o universo interior de Bloom ganhou contornos tão épicos quanto os do herói clássico, como se o autor quisesse mostrar que “o fluxo de cada vida é tão heroico ou vulgar como o mito de Ulisses”, como observou Antonio Houaiss, o primeiro tradutor do romance no Brasil, onde o livro só chegou no final dos anos 60.

SAIBA MAIS

James Joyce nasceu em Dublin, Irlanda, em 1882. Marcado por rígida educação jesuíta, estudou filosofia e línguas na University College.

Em 1902, deixa a cidade natal para ir morar em Paris, onde trabalha como jornalista e professor.

Dois anos depois, conhece Nora Barnacle, que se tornaria sua mulher somente em 1931. Com ela, se muda para a cidade italiana de Trieste, onde escreve a coletânea de contos Dublinenses (1914) e o romance Um Retrato do Artista Quando Jovem (1916).

Com a 1ª Guerra Mundial, refugia-se em Zurique, onde escreve Ulisses (1922), com o qual consegue reconhecimento internacional.

De volta a Paris em 1920, dedica 17 anos à elaboração do último romance, Finnegans Wake (1939).

Com o início da 2ª Guerra Mundial e a ocupação da França, retorna a Zurique, onde morre, em 1941.