Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

sábado, 19 de setembro de 2009

30 anos de artes visuais


Estou participando de um projeto de artes visuais intitulado 79>09, que compila 30 anos de produção artística nas cidades de Campinas e Ribeirão Preto. Com apoio do Ministério da Cultura (MinC) e produção do Ateliê Aberto Produções Contemporâneas e Direção Cultura, o projeto é uma iniciativa do portal EPTV.com em comemoração aos 30 anos das Emissoras Pioneiras de Televisão, da Rede Globo, em Campinas.

A minha função no projeto é entrevistar os artistas mais importantes de cada década e acompanhar o trabalho dos curadores envolvidos com a seleção das obras e montagem de duas exposições que serão realizadas em novembro deste ano, no Museu de Arte Contemporânea de Campinas "José Pancetti" (Macc) e no Museu de Arte de Ribeirão Preto "Pedro Manuel-Gismondi" (Marp).

O conteúdo gerado nesse processo está sendo postado no blog 79>09 (AQUI) e, posteriormente, será inserido em um hot site no portal da EPTV, com reportagens, entrevistas maiores e colaboração de críticos e especialistas, criando um patrimônio imaterial sobre as artes visuais das duas cidades.

A obra ao lado faz parte da nova série de pinturas sobre o grupo extremista alemão Baader Meinhof, do artista Fábio De Bittencourt, pertencente à geração 90, que produz a partir de Campinas.

Leia, abaixo, texto de apresentação do projeto 79>09:

79>09 – 30 anos de artes visuais em Campinas e Ribeirão Preto

Como se deu o desenvolvimento da produção em arte contemporânea nas últimas três décadas nas cidades de Campinas e Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, e como ela se projeta no século 21? Pela primeira vez em ambas as cidades será feito o levantamento das artes visuais nos anos 80, 90 e 2000 por meio do mapeamento de artistas representativos da arte contemporânea, com carreiras nacionais e internacionais, e a realização de duas grandes coletivas com as obras mais emblemáticas, no final do ano.

Campinas, irá trabalhar nos acervos do Museu de Arte Contemporânea de Campinas “José Pancetti” (Macc) e do Museu de Arte de Ribeirão Preto Pedro Manuel- Gismondi (Marp), além dos acervos dos próprios artistas – e de outras instituições – a fim de selecionar as obras mais marcantes de cada período, que estarão nas duas exposições históricas a serem inauguradas em novembro, no Macc e no Marp.

Além da preservação da memória, o projeto 79>09 pretende revelar o desenvolvimento das artes visuais entre o final do século 20 e início do 21 nas duas cidades, as diferentes linguagens e suportes utilizados nas obras e as possíveis trocas e influências entre as gerações de artistas.

Outra inovação do projeto é a utilização do conceito de transmídia, que é a intersecção entre diferentes meios de comunicação, que serão utilizados para expandir o processo de pesquisa e a criação de um patrimônio imaterial, além de um diário de produção que pode ser conhecido e acessado por qualquer pessoa, criando uma interlocução entre curadoria, artistas e público.

No portal EPTV.com serão postados textos, entrevistas, reportagens, vídeos e making of do projeto. Por meio de plataformas livres de comunicação, as pessoas também poderão participar da coleta de informações sobre cada período, sugerindo fontes e artistas. A TV aberta também poderá servir de suporte para inserções do projeto.

Com realização da Direção Cultura e Ateliê Aberto e apoio do Ministério da Cultura (MinC), o projeto 79>09 é uma ação da EPTV.Com para marcar os 30 anos da EPTV, e tem início agora.




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A vida se refaz




Quem vai pelo título se engana. "Uma Vida Entre Três Cachorros" (A Three Dog Life, Editora Planeta, 1ª edição, R$ 29,90, em média), da escritora norte-americana Abigail Thomas, não tem nada do que o título promete. Ainda bem! O que me atraiu ao livro, confesso, foi a bela fotografia que Jennifer May fez de uma senhora sentada em um sofá, entre seus três cães, como se esperassem a tarde passar.

Ao ler a sinopse, compreendi a expressão um tanto melancólica daquela senhora – na verdade, a própria escritora – que é quem aparece na fotografia. Longe de ser um relato sobre a vida com os cães, Abigail registrou suas memórias sobre a vida com o marido, um repórter chamado Rich, antes e depois dele ser atropelado quando corria atrás de um dos cachorros, no final dos anos 90.

Após o acidente, Rich perde a capacidade de reter a memória mais recente, torna-se paranóico e passa a morar permanentemente em clínicas de reabilitação. Apesar da terrível fatalidade, Abigail descobre um tipo de sintonia que está além da razão com o seu marido, a quem conheceu aos 46 anos de idade – ele com dez anos a mais do que ela – após publicar um anúncio na seção de relacionamento de um jornal, e com quem se casou apenas 13 dias depois do primeiro encontro.

Com casa na cidade de Woodstock, em Nova York, mãe de quatro filhos e avó de cinco netos, Abigail segue fiel à rotina de lecionar ficção na New School, escrever seus livros – ela é autora da autobiografia “Safekeeping”, de um romance e duas coletâneas de contos –, e visitar Rich periodicamente na clínica.

Não pense que, pelo resumo acima, “Uma Vida Entre Três Cachorros” é uma história indigesta, pesada. Pelo contrário, apesar da dor que Abigail sofreu e ainda deve sofrer e da saudade do companheiro – com quem estava casada havia 12 anos antes do acidente – a escritora consegue imprimir bom-humor e esperança nas 173 páginas de suas memórias.

Em nenhum momento de suas memórias ela demonstra autocomiseração ou revolta – com exceção do capítulo em que escreve sobre culpa. Ao aceitar a mudança de percurso, ela se dedica a desvendar a mente de pessoas com lesões cerebrais e se torna voraz consumidora de obras da chamada Arte Bruta –, que, como explica a autora em um capítulo dedicado somente a esse tema: “se refere a artistas autodidatas, muito frequentemente são pessoas que se mantêm à margem da sociedade, mas cujas raízes estão na arte do insano; foi inicialmente identificada na Europa no fim do século 19 e depois celebrada na primeira metade do século 20 pelo artista Jean Dubuffet, que a chamou de arte bruta, arte crua”.

Além de novos hobbies e rotina, Abigail aprende a “fazer uso da solidão em abundância para tirar algo de útil da catástrofe”. Observadora atenta do comportamento das pessoas, dos cães e das mudanças na paisagem, ela faz um relato aguçado da própria velhice, de como a mente humana se reorganiza após um trauma, de como tocar a vida com sua família de três cães e de como banir a melancolia por meio de situações e atividades aparentemente banais, mas que dão bastante significado à existência.

“Uma Vida Entre Três Cachorros” foi apontado como um dos melhores lançamentos de 2006 pelos jornais LA Times e Washington Post.

TRECHOS*

“Você precisará de três cachorros, um dos quais detectou o cheiro de alguma coisa interessante saindo pela janela do segundo andar. Ela é um cão de caça. Todos eles são cães de caça, e vocês quatro dormem juntos em uma cama de casal. Quando você abre os olhos (o hálito canino morno dela sobre sua face), ela a está encarando com tal intensidade que você vai morrer de rir. Você veste roupas da véspera (que estão esticadas convenientemente no chão) e encaminha-se escada abaixo sem tropeçar em Rosie, Harry ou Carolina, que estão sempre no meio do caminho. Quando você abre a porta da cozinha, eles voam para o quintal e imediatamente começam a caçar, focinhos rente ao chão, alguma pequena criatura cujo rastro em ziguezague assemelha-se a um eletrocardiograma. Você os segue no gramado verde molhado. Agora você está ao ar livre, e são cinco da manhã.”

“No começo da tarde o sol pode queimar através da névoa, e se você não se maravilhar com isso, não se irrite. De qualquer maneira, está na hora de um cochilo. Do lado de dentro, você pode notar que aquilo que pensou ser pó é, em vez disso, uma camada de pólen dourado que entra pelas janelas abertas. ‘Se pelo menos a vida fosse mais desse jeito’, você vai pensar quando se encaminhar com os cachorros para a cama, e então perceberá com um sobressalto que isso é vida.”

“Além disso, estou bastante bem sozinha. Nem sempre quero responder a uma pergunta sobre por que estou tossindo, se eu estiver tossindo. Gosto de ficar absorvida por Return to a Place Lit By a Glass of Milk sem que me perguntem o que estou lendo. Aprecio não ser interrompida quando não estou pensando em nada. Ninguém espanta meus cachorros para fora do sofá ou impõe restrições aos três, que peidam à noite, com cheiro de sardinha, debaixo das cobertas da cama. Gosto de mudar a mobília ao redor sem ninguém para desejar que eu não o faça ou não notar que eu o fiz. Gosto de cozinhas ou não, arrumar a cama ou não, capinar ou não. Assistir a filmes até as três da manhã sem ninguém reclamar. Sem falar dos cochilos.”

Extraído do livro "Uma Vida Entre Três Cachorros", de Abigail Thomas (Editora Planeta)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Alguém precisava recontar essa história


O ano é 1962, no Brasil, mas poderia ser hoje e em qualquer lugar. Corpos com claros sinais de tortura, muitas vezes nus e sem qualquer identificação, começam a aparecer, dia após dia, boiando em dois importantes rios da Cidade Maravilhosa. Que risco aquelas pessoas ofereciam? A que grupo elas pertenciam? Ou o que teriam testemunhado que ninguém mais poderia saber?

É bom lembrar que, há 47 anos, estávamos no período da pré-ditadura militar de direita no Brasil, e que a Baía de Guanabara era governada pelo jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), que mantinha no Rio de Janeiro o Serviço de Repressão Mendicância, órgão responsável por regular o fluxo e permanência de mendigos nas ruas da capital fluminense, e que, naquele ano, tratou de cuidar que a cidade ficasse livre de moradores de rua, usando como desculpa a possível visita da rainha da Inglaterra – coisa que aconteceu somente em 1968.

O fato é que a operação desencadeada pelo órgão que deveria repreender a mendicância durante a vinda da monarca ao Brasil entrou para a história como Operação Mata Mendigo, pois a forma encontrada para a “limpeza” das ruas do Rio foi afogar os moradores de rua nos rios Guandu e da Guarda. A aparição dos corpos em curtos intervalos de tempo chamou atenção da imprensa, que começou a investigar o caso e a estampar manchetes acusando o governo de extermínio.

Além das capas de jornal, essa história ganhou os palcos com a peça Topografia de um Desnudo, escrita pelo chileno Jorge Diaz (1930-2007), que foi montada pela primeira vez no Brasil somente em 1985, pela diretora paulistana Teresa Aguiar, com o Grupo Rotunda, sobre tradução de Renata Pallotini.

Este é apenas um prólogo para a crítica ao filme homônimo, que a própria Teresa Aguiar, 14 anos depois de encenar a peça, a muito custo, finalizou. Foram cerca de cinco anos de trabalhos intensos, rodando em Campinas, Paulínia – onde estreou o Pólo Cinematográfico – e Rio de Janeiro, com elenco formado por grandes nomes do teatro e do cinema como Maria Alice Vergueiro, Lima Duarte, Ney Latorraca e José de Abreu, e um elenco de apoio que ela ajudou a formar em oficinas de cinema realizadas em Campinas, além de revelações maravilhosas como a atriz Ariane Porto, que protagoniza a história e ainda se dividiu no roteiro e na produção do longa.

Com proposta ousada, que mistura as linguagens do documentário e da ficção, e técnicas como o Super-8 e a câmera digital, Teresa Aguiar realizou uma obra de arte sobre uma história indigesta: a matança de dezenas de mendigos no começo dos anos 60, consentida pelo Governo da Baía da Guanabara.

No ano seguinte ao aniversário de seis décadas da Declaração Universal dos Direitos Humanos – pouco lembrado no ano passado -, Teresa Aguiar, aos 74 anos de idade, insiste em jogar esse problema de volta no nosso colo, estejamos sentados nas poltronas do teatro – em 2008, ela voltou a encenar a peça de Jorge Diaz - ou do cinema, a fim de nos alertar sobre a morte de moradores de rua nas grandes cidades, seja ela provocada por grupos de extermínio, jovens inconsequentes ou pela falta de políticas públicas.

Neste que é seu primeiro longa-metragem adulto de ficção, Teresa juntou à história romanceada por Jorge Diaz depoimentos recentes de jornalistas que testemunharam e noticiaram o extermínio de mendigos no Rio. Às imagens fictícias, ela misturou flashes dos corpos desnudos, em fotos em preto-e-branco pinçadas dos arquivos da imprensa fluminense.

A trama se passa em dois planos: na consciência do mendigo Russo (Lima Duarte) e da jornalista Bel (Ariane Porto), que são os narradores; e na realidade. Em um lixão da cidade, perto de um dos rios onde os corpos começam a aparecer, um grupo de mendigos aparentemente organizados, que sobrevive catando sobras de comida e reciclando lixo. O Serviço de Repressão à Mendicância (representado aqui por Ney Latorraca e José de Abreu) detecta ali que pode ser um núcleo comunista, representado por Russo – apelido muito suspeito para a época – único mendigo alfabetizado do local.

Quando os corpos começam a aparecer, uma colunista social de um importante periódico do Rio se sensibiliza com o caso e solta uma nota de repúdio à violência, o que causa um incidente “diplomático” entre o governo e a direção do jornal. De um extremo ao outro da pirâmide social, tanto Russo quanto Bel passam a ter os passos seguidos por funcionários do governo.

A roteirista Ariane Porto pouco mexeu na história original, contada de maneira bem encadeada, sem perder o ritmo – tanto que é um filme curto para os padrões atuais: tem cerca de uma hora e meia de duração. A mão da diretora Teresa Aguiar aparece com força na forma com que filma e na direção dos atores, que brilham em cena, em atuações surpreendentes – com destaque para Maria Alice Vergueiro, que faz uma divertida cafetina que mora no lixão.

Esta não parece ser a estreia da diretora em um longa adulto. Teresa tem estilo. Ela utiliza uma paleta de cores em cada plano em que se passa a história e elementos surrealistas para diferir as dimensões em que as personagens aparecem. O recurso intercala momentos poéticos em meio à densidade da trama.

O Rio de Janeiro filmado por Teresa também foge dos clichês. Interessante observar que a câmera Super-8, quando percorre a Avenida Atlântica a bordo do carro das personagens, na orla de Copacabana, nunca se volta para o mar. Prefere mirar as fachadas chiques dos edifícios à beira-mar, fazendo o contraponto com os barracos dos mendigos no lixão.

Destaque também para a pesquisa histórica e a direção de arte, que fez um belo trabalho de reconstrução da época, por meio de figurino, móveis, objetos e automóveis; além da fotografia de Carlos Ebert – de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla – e trilha sonora.

Definitivamente, Topografia de um Desnudo é um filme que incomoda e surgiu com esse objetivo. Com certeza, não deverá estrelar nos complexos de cinema, nem será assistido por quem vê um filme apenas como entretenimento, mas falará fundo àqueles que se interessam pela história recente do País e às organizações e instituições que lutam pela dignidade das pessoas em situação de rua.

sábado, 18 de julho de 2009

O tempo do preconceito


Quem é capaz de continuar admirando alguém que se revela intolerante com as diferenças? Talvez o amor resista até o preconceito entrar em cena.

Questões assim são tratadas com delicadeza e beleza no segundo longa-metragem do diretor Roberto Moreira, Quanto Dura o Amor?, exibido pela segunda vez este ano – a primeira foi no dia 11 de julho, no Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo –, no 2º Festival Paulínia de Cinema, no dia 12 de julho, saindo premiado duas vezes na categoria melhor atriz para Silvia Lourenço e para a estreante no cinema Maria Clara Spinelli, conhecida dos palcos paulistanos.

Moreira estreou em 2004, com o filme Contra Todos, que guarda semelhanças com o novo projeto nos encontros sexuais explosivos entre personagens díspares. Assim como aquele trazia um matador de aluguel atraído por uma evangélica e um negro por uma adolescente branca, Quanto Dura o Amor? acompanha três relacionamentos que também desafiam preconceitos em relação a gênero, raça e profissão.

O roteiro escrito por Anna Muylaert (Durval Discos) e Roberto Moreira gira em torno da atriz Marina (Silvia Lourenço, foto), que disputa o amor da cantora de rock Justine (Danni Carlos) com o dono de bar Nuno (Paulo Vilhena); da advogada Suzana (Maria Clara Spinelli), que guarda um segredo importante do pretendente Gil (Gustavo Machado); e do escritor nerd Jay (Fábio Helford), que é obcecado pela prostituta Michelle (Leilah Moreno).

São Paulo é o lugar para as histórias que se intercalam. Em muitas cenas, a cidade é captada de cima do Condomínio Jaqueline (que daria nome ao longa, não fossem as mudanças no roteiro), na Avenida Paulista, próximo à Avenida Consolação, onde moram Marina, Suzana e Jay. Com ênfase nas cenas noturnas, o diretor de fotografia Marcelo Trotta conseguiu transformar o cenário em mais uma personagem na trama, capaz de influenciar, com seu ritmo, cores e sons, o humor e as decisões das personagens.

A trilha sonora, assinada por Livio Tragtemberg, é outro elemento que dá força à trama, ao assinalar o sentimento das personagens. Para além da música originalmente composta, a produção também apostou em uma pérola do pop internacional para abrir o filme: a canção High and Dry, da banda Radiohead, que assistiu ao filme antes de liberar a música que integra o álbum The Bends (1995). A música também aparece também na voz de Danni Carlos ao violão.

Mais do que histórias de amor, o filme nos coloca dilemas importantes a serem resolvidos intimamente e também publicamente, e revela que a entrega amorosa depende da capacidade do ser humano se maravilhar, mais do que se assustar, diante do novo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Enquanto a vida não vem


Heitor Dhalia surpreende no terceiro longa-metragem, À Deriva (Brasil/Estados Unidos), com uma história de emoções sutis na superfície e conturbadas mais ao fundo, que pede a colaboração do espectador na construção do drama que vive a personagem principal, a adolescente Filipa (Laura Neiva). Talvez a única semelhança que tenha com Nina (2004) e O Cheiro do Ralo (2006) – longas anteriores de Dhalia – seja o foco em personagens que sofrem de inadequação social.

Primeira produção internacional do diretor e roteirista brasileiro, À Deriva narra conflitos íntimos, que vêm de fontes variadas: da passagem de Filipa para a vida adulta, da descoberta do sexo, das traições protagonizadas por seus pais – brilhantemente vividos pelo ator francês Vincent Cassel (de Irreversível) e por Débora Bloch – e das consequentes violações verbais e emocionais provocadas por ambos.

O cenário não poderia ser mais adequado a esse drama familiar com gosto de tragédia anunciada: o mar, tão sedutor e traiçoeiro quanto qualquer promessa de amor eterno ou família plenamente feliz. Ambientada nos anos 80, em Búzios, no Rio de Janeiro, a história – escrita por Dhalia com a diretora paulistana Vera Egito – acompanha as férias atribuladas de uma família classe média alta.

À primeira vista, tudo parece em harmonia, mas os belos rostos guardam mágoas profundas, que vêm à tona em forma de ressaca, e isso não é apenas uma metáfora. Clarice (Débora Bloch) é uma professora em crise com o casamento que gerou duas meninas, um garoto e muitas dúvidas em relação ao marido, o escritor francês radicado no Brasil, Mathias (Vincent Cassel, que fala português). O uísque passa a ser o antídoto para o tédio, enquanto o marido busca inspiração para o novo romance em outra mulher (Camilla Belle).

Assim como no filme O Piano (1993), de Jane Campion, Dhalia revela a crise do casal por meio do olhar de Filipa, que perde os últimos traços da infância e descobre o sexo ao testemunhar a traição do pai. Solitária em suas descobertas, a garota devolve a angústia em forma de crueldade para com os amigos e de precocidade sexual, ao decidir se entregar a um homem mais velho.

Outras semelhanças com o filme de Campion aparecem na relação dos protagonistas com o mar – À Deriva começa e termina dentro d’água – e na trilha sonora, composta originalmente por Antonio Pinto, com piano e cordas, lembrando um réquiem. Daí a sensação de tragédia iminente que perpassa todo o filme.

A beleza da menina se tornando mulher em meio ao cenário paradisíaco de Búzios e Cabo Frio (onde foram rodadas algumas cenas) cresce com a fotografia de Ricardo Della Rosa, que faz o contraponto entre a adolescente solar e os pais crepusculares. Essa contraposição também é realçada pela câmera quase epidérmica de Dhalia, que resvala nos cabelos ao vento e na pele dourada de Filipa, assim como nos vincos de mágoa dos pais e nas sombras interiores da casa de praia.

Apesar de bem mais maduro como cineasta, Dhalia ainda é capaz de escolhas perigosas, como pela estreante Laura Neiva para protagonizar essa história densa e delicada, mas que aqui faz todo o sentido. Afinal, em um filme sobre a inconstância das relações humanas, o excesso de profissionalismo poderia não nos convencer da fragilidade da personagem. Aliás, a espontaneidade parece ter sido um elemento desejado pelo diretor, pois ela marca todas as interpretações.

Aplaudido por cinco minutos no 62º Festival de Cannes, em première mundial na mostra paralela Um Certain Regard (Um Certo Olhar), À Deriva foi exibido pela primeira vez no Brasil no dia 9 de julho, abrindo o 2º Festival Paulínia de Cinema, fora da mostra competitiva. Por não ser um filme leve, destoou um pouco do clima de festa da abertura.

O FILME

À Deriva, de Heitor Dhalia. Com Vincent Cassel, Débora Bloch, Laura Neiva, Cauã Reymond, Camilla Belle

A grandeza das coisas miúdas


Assim como a poesia subverte o sentido das coisas e das palavras, a linguagem do documentário também reinventa a realidade. Afinal, qualquer recorte dos fatos se aproxima muito mais de uma versão do que uma verdade. E ninguém melhor para falar sobre as diversas versões para a realidade do que o poeta matogrossense Manoel de Barros, autor de 20 livros publicados, que se orgulha de suas “memórias inventadas” e diz que 90% do que escreve é invenção – nesse caso, é apenas a forma originalíssima com que vê as coisas ao redor e as retrata por meio da poesia.


Com o nome de Só Dez Por Cento é Mentira – A Desbiografia Oficial de Manoel de Barros, um documentário conseguiu o que parecia impossível: registrar, em audiovisual, uma longa entrevista com o poeta, que recusava qualquer tentativa de gravarem sua voz – para ele, “a palavra oral não dá rascunho” – e a quem interessava tornar público somente o “ser letral” pelo simples fato de o “ser biológico ser totalmente sem graça”.


O diretor Pedro Cezar (do genial documentário Fábio Fabuloso e que também é poeta) conseguiu a façanha após muitas tentativas e levou dois anos para realizar o filme. Foi ao soltar a frase “era só um sonho mesmo”, por telefone, diante de mais uma negativa de Barros, que ele ouviu o tão desejado sim.


Vencedor na categoria melhor documentário no 2º Festival Paulínia de Cinema, realizado do dia 9 a 16 de julho, Só Dez Por Cento é Mentira (saiba mais em www.sodezporcentoementira.com.br) deve chegar aos cinemas entre 4 e 11 de setembro, com distribuição da Downtown Filmes.


É impressionante a forma como o filme provoca nossos sentidos ao captar o universo de Barros por meio da câmera sensível, que instiga tanto o olhar criativo quanto o contemplativo sobre objetos, paisagens e pessoas. Imagens simples como um muro descascado ou um portão enferrujado ganham sentidos completamente outros quando somadas à música originalmente composta por Marcos Kuzka, com tablas, violas, violões e outros instrumentos (procure em www.myspace.com/sodezporcento) e aos versos do poeta, que se formam palavra por palavra na tela grande.


Não espere paisagens deslumbrantes do Pantanal emoldurando essa desbiografia. Tudo ali é mostrado nas miudezas e com certo humor, como é a poesia de Manoel de Barros, que está com 92 anos de idade e mora na área rural de Campo Grande. Em sua casa, há um espaço batizado por ele de “lugar de ser inútil”, que é onde escreve os poemas, tudo à mão, e confecciona as centenas de caderninhos de rascunho que coleciona.


A montagem dinâmica intercala depoimentos de artistas, críticos, amigos e parentes sem qualquer didatismo. Ainda com a preocupação de participar o espectador do processo de feitura do documentário, Pedro Cezar utiliza o recurso da narração em off ao longo de todo o documentário, sem desmitificar a figura do poeta, que diz não querer dar informações, mas encantamento. Afinal, “se os fatos não correspondem à vida, pior para os fatos”.

Vencedores do 2º Festival Paulínia de Cinema


Olhos Azuis, de José Joffily, recebeu o troféu Menina de Ouro como o melhor longa de ficção do II Festival Paulínia de Cinema que premiou, ainda, o documentário, Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar. O curta Timing, de Amir Admoni, e Spectaculum, de Juliano Luccas, emplacaram os melhores nas categorias nacional e regional, respectivamente.

O júri escolheu Ana Luiza Azevedo, de Antes que o mundo acabe, como a melhor direção de ficção, e a dupla Roberto Berliner e Pedro Bronz, por Herbert de Perto, pela direção de documentário.

O prêmio especial do júri foi para Contador de Histórias, de Luiz Villaça.

Júri de Longas

Zuenir Ventura – jornalista e escritor

Adhemar Oliveira – exibidor (sócio diretor dos circuitos Espaço e Arteplex)

Elena Soarez – roteirista

João Jardim – diretor

Maria Ângela de Jesus – diretora de produção da HBO

Júri de Curtas

Ana Carolina Lima – atriz

Hubert Alquéres – diretor presidente da Imprensa Oficial

César Cabralk – Cineasta

Helvécio Marins – produtor e selecionador dos Festivais de Rotterdan e Locarno

Wilson Cunha – jornalista

Maria Clara Fernandes – diretora de finalização

A seguir, a relação dos premiados:

Longa-metragem - Ficção:

Melhor Filme ficção: R$ 60 mil: Olhos Azuis, José Joffily.

Melhor Direção de Ficção: R$ 30 mil: Ana Luiza Azevedo, de Antes que o Mundo Acabe.

Prêmio Especial do Júri: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.

Melhor Roteiro: R$15 mil: Paulo Halm e Melanie Dimantas, de Olhos Azuis.

Melhor Ator: R$ 25 mil: Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, de O Contador de Histórias.

Melhor Atriz: R$ 25 mil: Cristina Lago, de Olhos Azuis / Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, de Quanto Dura o Amor?

Melhor Ator Coadjuvante: R$ 15 mil: Irandhir Santos, de Olhos Azuis.

Melhor Atriz Coadjuvante: R$ 15 mil: Nívea Magno, de No Meu Lugar.

Melhor Figurino: R$ 15 mil: Rosangela Cortinhas, de Antes que o Mundo Acabe.

Melhor Trilha Sonora: R$ 15 mil: Leo Henkin, de Antes que o Mundo Acabe.

Melhor Direção de Arte: R$ 15 mil: Fiapo Barth, de Antes que o Mundo Acabe.

Melhor Som: R$ 15 mil: François Wolf, de Olhos Azuis.

Melhor Montagem: R$ 15 mil: Pedro Bronz, de Olhos Azuis.

Melhor Fotografia: R$ 15 mil: Jacob Solitrenick, de Antes que o Mundo Acabe.

Longa-metragen - Documentário:

Melhor Documentário: R$ 45 mil: Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar
Melhor Direção de Documentário: R$ 30 mil: Roberto Berliner e Pedro Bronz, por Herbet de Perto.

Curta-metragem - Regional:

Melhor Filme: R$ 20 mil: Spectaculum, de Juliano Luccas

Melhor Direção: R$ 15 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será katlyn

Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Pedro Struchi, de Prós e Contras

Melhor Ator: R$ 8 mil: Alexandre Caetano, de Prós e Contras

Melhor Atriz: R$ 8 mil: Roseli Silva, de Morte Corporation

Melhor Montagem: R$ 8 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será Katlyn

Melhor Fotografia: R$ 8 mil: Marcelo Mazzariol, de Spetaculum

Curta-metragem - Nacional:

Melhor Filme: R$ 20 mil: Timing, de Amir Admoni

Melhor Direção: R$ 15 mil: Érico Rassi, de Milímetros

Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Erico Rassi de Milímetros

Melhor Ator: R$ 8 mil: Fábio Di Martino, de Milímetros

Melhor Atriz: R$ 8 mil: Débora Falabella, de Doce Amargo

Melhor Montagem: R$ 8 mil: Amir Admoni, de Timing

Melhor Fotografia: R$ 8 mil: André Modugno, de Relicário

Prêmio da Crítica:

Melhor Filme de Ficção: Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo

Melhor Filme de Documentário: Moscou, de Eduardo Coutinho.

Júri Popular:

Melhor Filme de Ficção: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.

Melhor Filme de Documentário: R$ 20 mil: Caro Francis, de Nelson Hoineff.

Melhor Curta-metragem Nacional: R$ 10 mil: Nesta Data Querida, de Julia Rezende.

Melhor Curta-metragem Regional: R$ 10 mil: Quem será katlyn, de Caue Fernandes Nunes.

sábado, 11 de julho de 2009

Don Juan das palavras


Fabrício Carpinejar é uma pessoa desconcertante. O rosto medieval contrasta com o visual moderno: camisa assinada por Ronaldo Fraga, calça jeans, tênis, unhas de uma das mãos pintadas de verde e a nuca com a palavra “gol” desenhada nos cabelos — ele é fanático pelo Internacional e, na ocasião, o time tinha vencido o Flamengo.

Poeta, jornalista, professor de literatura e consultor sentimental — também escreve para o blog Consultório Amoroso, em que responde às perguntas enviadas pelos internautas — esse gaúcho de Caxias do Sul, filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, e radicado em São Leopoldo, é dono de uma das obras poéticas mais comentadas e premiadas da atualidade.

Aos 36 anos de idade, ele é autor de uma extensa bibliografia (confira em quadro nesta página), que começa em 1998, com As Solas do Sol, e é permeada pelas experiências ligadas à terra natal e à família e pela imaginação, como quando se projeta aos 72 anos de idade no livro Terceira Sede — Elegias, de 2001 — reeditado este ano pela Bertrand Brasil.

Separado duas vezes e duas vezes pai, ele passa a escrever crônicas sobre amor e relacionamentos em 2006. São textos marcados pelo humor e pela autoironia, como se nota no livro Canalha! Retrato Poético e Divertido do Homem Contemporâneo, lançado no ano passado e que deu muito o que falar.

A entrevista que Carpinejar concedeu foi feita minutos depois dele ministrar um workshop de poesia no encontro literário Versões — realizado no final de maio, pelo Sesc-Campinas. Era uma noite fria e ele chegou à mesa com dois capuccinos grandes: um para ele e o outro para a repórter, que lhe agradeceu a gentileza. “Não estou sendo gentil. Estou apenas sendo autêntico”, respondeu o poeta, quebrando qualquer formalidade. Leia, abaixo, trechos da entrevista.

No livro Canalha!, você fala sobre comportamento masculino. O que mudou?

O homem, antes, era ostensivamente masculino. Hoje, ele é implicitamente masculino. Ele gosta da penumbra. O canalha é viril no silêncio, no mistério.

Por que o termo canalha?

Porque é delicioso ouvir de uma mulher que se é canalha. Uma mulher não consegue espantar o homem chamando ele de canalha. Tenta. Fala canalha pra mim.

Canalha.

Viu? Você não consegue. A mulher fala canalha sorrindo.

Eu nunca chamei ninguém de canalha.

É uma pena. Acho que tem uma lacuna terrível em sua vida. É excitante. Só usa canalha para um homem que não tem como ser corrigido. Canalha é quase uma declaração de amor. Se “tu” quiser abandonar esse homem, vai chamá-lo de pilantra, cretino.

Todo canalha é sedutor? Seria uma espécie de Don Juan?

Seria um Casanova. Ele se importa com as mulheres. Ele entende que a mulher não quer o homem, ela quer o homem e seu mundo. Tem de trazer o contexto junto. Você não vai conquistar uma mulher pela conversa que tem com ela, mas como reage conversando, como reage com os amigos, com o porteiro. Ela vai te avaliar muito mais por aquilo que não acontece na conversa.

De onde vem o seu prazer de falar desses assuntos?

Sobrevivência. Sou um homem feio.

A literatura veio como uma forma de compensação?

É uma maneira de se estender, de se prolongar. De criar personagens, situações, histórias. Não me limitei ao que sou. Me ampliei ao que vejo. O humor me salvou, não a literatura.

O humor na maneira de viver?

O homem que não sabe rir de si mesmo não vai sair de uma dor de cotovelo. O sexo termina na amargura.

Foi por meio da poesia que você conseguiu respeito?

Eu conquistei o desrespeito, que é uma forma de respeito ainda maior. Um poeta que se dá bem com todo mundo está fazendo uma outra coisa que não poesia. Ele deveria estar trabalhando no Itamaraty. Porque você está num ato de franqueza e transparência inadmissíveis. Tem de ter uma crueldade consigo para não ser cruel com os outros.
Você tem de ser prodígio de seus defeitos.

Você acha que isso aproxima a poesia das pessoas, pela identificação?

Pela humanidade. Gosto muito de uma frase de Nelson Rodrigues, “toda grandeza desumaniza”. A gente tem que encolher. Nosso corpo encolhe ao longo da vida de propósito. A gente tem que aprender a dar espaço.

Foi por isso que você se projetou aos 72 anos no livro A Terceira Sede? O que acontecia na sua cabeça naquele momento?

Uma irritação. Eu ia nos Correios ou no banco e na minha frente tinha um velho que conversava com um atendente. Eu não compreendia que aquele era o momento sociável dele. Tinha um momento em que ele ia para a rua narrar suas proezas prosaicas. Era a maneira de ele existir. E eu tentei me colocar no lugar dele. Depois eu quis me colocar aos 70 anos. Como eu faria? Por exemplo, minha mãe está com 70 anos. Para mim, isso é estar com o pé na cova. E a gente não percebe o quanto envelhece. A gente tem medo de chamar alguém de velho. Acho que esse livro é muito cool nesse sentido. Ele coloca o velho como velho e une as pontas da vida. A infância é um excesso de imaginação e a velhice, um excesso de memória. Ambas têm dificuldades de pensar. Até hoje tem coisas da minha infância que eu não sei se imaginei ou se vivi ou se me contaram. Na velhice, é a mesma coisa.

Por que a memória tem um papel tão importante na sua literatura?

Minha memória é uma forma de ter futuro. Ela não se relaciona só com o passado. Assim como o amor presente também altera os amores antigos. A gente altera o passado. O passado não é imóvel.

Você gosta de viajar no tempo da memória e da imaginação.

É o que me salvou.

Salvou do quê?

Do isolamento.

Você tinha tendência para se isolar?

Todos têm tendência de se isolar. Mas eu sou extremamente contagioso. Eu gosto de me contagiar. Sou viral nesse sentido. Acho que meu caminho era direcionado para o encolhimento, para a vergonha, para ficar encabulado. Para uma timidez sem recreio. E eu consegui trabalhar isso que é a exposição. A exposição me protege.

E aí contradiz aquela imagem do poeta ensimesmado, do poeta solitário.

Eu não me aguento muito tempo preocupado.

Mas ocupado sim. Você se isola para escrever?

Eu escrevo em qualquer lugar.

Não tem essa coisa do ritual de escrever?

O ritual de escrever não define minha literatura. O que define a minha literatura é o deslugar. A falta de lugar é o que faz escrever. Não é o lugar. Se você tem um lugar, você não vai escrever. Você está procurando um lugar.

Mudando de assunto, o governo paulista proibiu fumar em qualquer lugar fechado e quer proibir até quentão em festa junina. O que você acha disso?

Estão subestimando as pessoas a ponto de dizer que elas não podem decidir. A gente está deixando que o governo escolha por nós. A gente está numa fase em que não quer sofrer, não quer arcar com as consequências. O governo está dizendo que não temos qualidade mental para cuidar das nossas vidas.

Você acha que as pessoas estão se infantilizando?

É uma boa perspectiva. Elas estão se infantilizando. Porque elas nem questionam por ter um significado maior, que é a saúde.

E saúde para quê? O que será que as pessoas querem viver?

Não importa. O importante é ter saúde, não como você emprega essa saúde.

No seu blog, você escreveu que alguém tem de ter coragem de envelhecer neste mundo...

A gente não está preparado para o velho hoje. Que é um velho que envelheceu muito mais do que qualquer outro velho. Eu tenho 36 anos e parece que vivi séculos. A mudança abrupta da tecnologia nos fez envelhecer a ponto de estarmos com 30 anos e ficar com vontade de escrever nossas memórias. Nunca a autobiografia foi tão precoce. Escrevi a minha com medo de morrer antes.

Será que quando você chegar aos 72 anos vai escrever suas memórias de novo?

Não sei se vou ter esse capricho.

Será que você estará vestindo um fardão da Academia Brasileira de Letras?

Isso não é um objetivo de vida (pausa). Acho que posso pedir emprestado para o meu pai.

Você está para lançar o livro A Família Não é uma Empresa. Como é esse livro?

Vou comparar minha infância com a dos meus filhos. O livro trabalha com essa percepção de que a gente precisa ter um lugar para falir. Rivaliza com a autoajuda que trabalha a família como se fosse um negócio, e o filho, um empregado. É um livro para retrabalhar esse sentido de família, de convivência, de contar os problemas em casa.

O que falta nas famílias de hoje?

Falta o amadorismo do gesto, o amadorismo da conversa, a inconsequência do afeto. Eu quis trazer toda a minha infância junto da dos meus filhos para ver até que ponto a gente não está permitindo que as crianças tenham cicatrizes. O pai, hoje, acha que tem de sofrer no lugar do filho. A gente se torna velho no momento em que diz que nosso passado era melhor. Eu tentei fugir um pouco disso. Comparo, mas sem estabelecer o melhor, porque até o meu passado precisa ser alterado.

Pelas memórias.

Pelos meus filhos. Eles têm a capacidade de me reinventar, de me dizer algo que não fiz naquele tempo. A infância dos meus filhos é contemporânea da minha infância. Eles reparam atitudes, devolvem gestos, recompensam, me preparam para enxergar aquilo que eu queria esquecer. Me preparam para lembrar aquilo que eu precisava.

É como se você continuasse neles.

A paternidade é uma paciência consigo mais do que com os filhos. É isso o que a gente não entende. E eles sentem. Mesma coisa que botar uma criança para dormir querendo que ela durma logo a todo custo para poder fazer outras coisas. Eu me lembro que era um liquidificador com a primeira filha, a Mariana, que está com 15 anos. Fui aprender a virar chaleira com o Vicente.

Você se realiza sendo pai?

Meu sono mudou. A delicadeza mudou. Ser pai é se permitir a perder tempo. Por exemplo, eu e meu filho temos um país imaginário chamado Lídimo, que significa autêntico e verdadeiro. Então, a gente criou a bandeira, os estados, as capitais e as cidades e está criando o hino. É uma ilha perto da Oceania. O idioma é o português lido ao contrário.

Isso é perder tempo?

O que você perde em tempo você ganha em eternidade no teu filho, que é a sequência. O que o filho mais pede é a sequência. Que aquela história que você leu no dia anterior tenha sentido no dia seguinte. É se importar com o lembrar.

Paulínia divulga selecionados em edital de cinema

O secretário de Cultura de Paulínia, Emerson Alves, anunciou na sexta-feira, dia 10 de julho, os 10 filmes selecionados no Edital do Concurso 01/2009 que irão receber investimentos de R$ 5.700 milhões para produções rodadas este ano e R$ 3.300 milhões para as filmagens previstas para 2010, totalizando R$ 9 milhões, além de 10 suplentes.
O anúncio foi feito em coletiva de imprensa que contou com Mário Diamante, presidente interino da Agência Nacional de Cinema (Ancine), do curador do Festival Paulínia de Cinema, Rubens Ewald Filho, além do presidente do evento, Ivan Melo. Em outubro, a Prefeitura de Paulínia publicará novo edital.
Segundo o titular da Cultura, foram inscritos 44 projetos, dos quais 20 foram selecionados para expor seus projetos. Entre os requisitos desejados, estavam a inclusão de locações e da mão-de-obra da cidade, especialmente de profissionais formados pela Escola Magia do Cinema, que faz parte do Pólo Cinematográfico de Paulínia. Para exemplificar, no ano passado, cada produção abriu em média de 300 a 400 vagas diretas para profissionais como montadores de cenário, figurantes, assistentes de produção, elenco, entre outros, que foram qualificados na escola.
Conhecida como o maior polo petroquímico da América Latina, Paulínia ousa no projeto cinematográfico e investe em mais quatro estúdios, que, segundo o secretário Emerson Alves, serão lançados a partir de janeiro de 2010.

Abaixo, os contemplados:

Nos termos da Seção VIII do Edital do Concurso 01/2009 foram selecionados para filmagem no exercício fiscal de 2009:


1) As Vidas de Chico Xavier – Lereby Produções LTDA – R$ 1.500.000,00 (hum milhão e quinhentos mil reais). Direção: Daniel Filho

2) Filme de Estrada – Bananeira Filmes – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais). Direção: Selton Mello

3) Meu País – Sombumbo Filmes LTDA – R$ 700.000,00 (setecentos mil reais). Direção: André Sturm

4) Doce Veneno do Escorpião – TV Zero – R$ 700.000,00 (setecentos mil reais). Direção: Marcos Baldini

5) Doze Estrelas – LAP Filmes – R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais). Direção: Luiz Alberto Pereira

6) Transeunte – Vídeo Filmes Produções Artísticas – R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais). Direção: Eryk Rocha

7) Trabalhar Cansa – Dezenove Filmes – R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais). Direção: Marcos Dutra e Juliana Rojar

Total do Apoio Financeiro para 2009: R$ 5.700.000,00 (cinco milhões e setecentos mil reais).

Completam a seleção de projetos, com cronograma de desembolso e filmagem para o exercício de 2010:

8) Corações Sujos – Radar Cinema e Televisão LTDA – R$ 1.500.000,00 (hum milhão e quinhentos mil reais). Direção: Vicente Amorim

9) À Beira do Caminho – Conspiração Filmes – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais). Direção: Breno Silveira

10) Sex Delícia – Morena Filmes – R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais). Direção: Roberto Santucchi

Total do Apoio Financeiro para 2010: R$ 3.300.000,00 (três milhões e trezentos mil reais)

Compreendem projetos suplentes, de acordo com o cronograma de execução dos projetos selecionados:

A Última Estação – Asacine – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Corda Bamba – SP Filmes – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Pulsar – Onde Está a Felicidade – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Apolo – Reis do Futebol – Fraiha Produções de Eventos e Editora LTDA – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Quase Memória – J. Sanz Produções Audiovisuais – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

A Primeira Missa – Crystal Cinematográfica – R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais)

Entre Vales e Montanhas – Pólo de Imagem LTDA – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

America, Americana – Ramalho Filmes – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

Projeto Syndrome – TLC – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

Alto da Bronze – Raiz Produções – R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De volta ao pedestal


“Nem vem que não tem/Nem vem com garfo que hoje é dia de sopa/ Esquenta o ferro/Passa a minha roupa.” Quem não se lembra desses versos cantados de um jeito todo malandro no filme Cidade de Deus, na cena em que um grupo assalta uma loja de armas, no Rio de Janeiro? A música, composta por Carlos Imperial e interpretada por Wilson Simonal, fez parte de um gênero que não durou muito tempo: a pilantragem, termo cunhado pelo próprio Imperial e representado com muito estilo pelo cantor, que não fazia gênero bom moço.
Artista de grandes recursos, bonitão e cheio de banca, Simona (como também era conhecido) sabia como dominar plateias imensas e, rapidamente, conquistou muito sucesso e dinheiro. Filho de empregada doméstica e ex-cabo do Exército, o cantor desfilava pelo Rio de Janeiro com roupas caras, a bordo de conversíveis, totalmente alheio ao momento político delicado pelo qual o País passava no final dos anos 60, quando recrudesceu a perseguição política aos artistas e intelectuais. Por essa e por outras, provocou muita inveja e desconfiança, e acabou se envolvendo em uma polêmica que o tirou do pedestal.
A carreira e a vida do cantor condenado ao esquecimento quando teve o nome associado à ditadura são resgatadas no sensacional documentário Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei, dirigido pelo “Casseta” Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, virou mania nas salas do Rio de Janeiro e São Paulo.
O filme foi exibido em diversos festivais no ano passado — quando fez 70 anos do nascimento de Simonal — e venceu o 1º Paulínia Festival de Cinema como melhor documentário, na eleição dos júris oficial e popular.
Muito do sucesso do longa se deve a três fatores: à montagem moderna, em ritmo de videoclipe, com o uso de vinhetas cheias de grafismos e animações psicodélicas para separar as várias fases da carreira; às imagens de arquivo, que revelam a exuberante performance do cantor às novas gerações; e aos depoimentos de personagens imprescindíveis para se reconstruir a grandeza de Simonal como artista e as fraquezas dele como pessoa — entre os entrevistados, estão Luiz Carlos Miéle, Jaguar, Ziraldo, Nelson Motta, Chico Anysio, Pelé, Tony Tornado, e claro, com os filhos do artista, os também cantores Max de Castro e Simoninha.
Mas a maior contribuição da obra foi jogar luz sobre o episódio que levou o cantor a ser considerado informante dos militares — delito que ele negou até morrer de cirrose, em 2000, aos 62 anos, após tomar um porre de ostracismo. Fruto de verdadeiro trabalho de jornalismo investigativo, os diretores conseguiram desencavar um personagem crucial, 40 anos depois do triste episódio, a fim de esclarecer o que, afinal, aconteceu para a esquerda e a imprensa brasileiras concluírem que Wilson Simonal era espião da ditadura.
Apesar do clima de pesar que toma conta do filme ao repassar os motivos que levaram o artista à decadência moral e financeira, Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei é recheado de momentos maravilhosos, como quando ele faz um dueto com Sarah Vaughan, cantando em inglês perfeito (apesar de não saber falar a língua) e histórias deliciosas e muito engraçadas, protagonizadas pelo dono de uma das vozes mais bonitas da música brasileira, talvez, a maior voz de todos os tempos.

Um sujeito perguntador


As sobrancelhas grossas e os olhos diminutos de João Miguel marcaram de diversas maneiras o cinema brasileiro: ele foi Ranulpho, um sertanejo turrão em Cinema, Aspirinas e Urubus; João, o ex-namorado da prostituta Hermila em O Céu de Suely; Raimundo Nonato, migrante nordestino que vira cozinheiro em Estômago; e um pai violento em Mutum.

Nascido em Salvador, com passagens pelo Rio de Janeiro e João Pessoa antes de radicar-se em São Paulo, Miguel representa com a mesma graça e verdade as agruras do homem do sertão ou da metrópole. “Acredito em um cinema humanista e em um teatro que possam trazer à tona questões que tenham a ver com o nosso tempo”, diz.

Nas artes cênicas, se destacou como o palhaço Magal (criado em 1989, sob orientação de Luiz Carlos Vasconcelos) e, principalmente, como Arthur Bispo do Rosário, no monólogo Bispo, dirigido por Edgard Navarro, que percorreu o Brasil durante cinco anos, e que lhe valeu o convite para protagonizar o primeiro longa-metragem, Cinema, Aspirinas e Urubus, em 2005.

Este ano, Miguel completa três décadas de uma carreira iniciada aos 9 anos de idade. Formado ator em 1989, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, viveu dois anos na Paraíba, como integrante do Grupo Piolim. Sobre essa experiência, está escrevendo o roteiro do filme que pretende dirigir em breve.

Foi também na Paraíba que conheceu o Lume Teatro, de Campinas, que o convidou para falar sobre o ator no cinema, no dia 9 de fevereiro, uma segunda-feira, em debate dentro do projeto Terra Lume. Antes, o ator recebeu a reportagem para o bate-papo a seguir:

Foi depois do monólogo Bispo que você recebeu o convite do diretor Marcelo Gomes para atuar em Cinema, Aspirinas e Urubus, que lhe deu o primeiro prêmio como ator. Você deve isso à sua trajetória no teatro?

João Miguel — Eu cheguei a fazer cinema com a mesma paixão que eu fazia teatro, me adaptando no fazer com a diferença da linguagem. Acho que a paixão é fundamental. O Marcelo Gomes viu isso. Tive oportunidade de fazer um cinema mais autoral, um cinema parecido com o teatro que eu fazia. Eu pude colaborar, questionar. A figura do ator não estava tão amarrada ao personagem. Tive a possibilidade de recontar, de colocar o texto na minha boca. Sempre trabalhei com diretores que tinham essa marca. Eu venho do teatro de indagação, de investigação dentro do trabalho do ator e de apaixonamento sobre o personagem. Eu fiz o espetáculo do Bispo durante cinco anos. Foi um divisor de águas muito importante.

O ator vindo do cinema pode fazer teatro tão bem quanto no cinema?

Uma coisa que eu evito na vida é o rótulo, a catalogação, então, eu acho que não tem uma regra para nada. É possível tudo a partir da sua trajetória.

Estou perguntando isso porque o teatro depende muito do trabalho do ator, enquanto que o cinema, do diretor.

Isso não é uma verdade absoluta. O ator leva o seu registro para o cinema e aquilo vai imprimir muito porque a câmera pega tudo. Até o que você não quer mostrar. É óbvio que eu encaro o teatro como uma base, a minha base. Eu faço desde os 9 anos. Depois eu tive oportunidade de encontrar homens de teatro que são referências, como o (grupo) Lume, que te ajudam a buscar essa base, essa formação. Essa busca existiu durante muito tempo sem eu estar exposto para a mídia. Quando surgiu a oportunidade de fazer cinema, eu já tinha uma base construída.

Você acha que ter nascido e crescido em Salvador e depois vivido em João Pessoa te manteve um pouco afastado da mídia?

Talvez. Mas eu tenho tendência, sempre, mesmo morando em São Paulo, de me aquietar e fazer minhas perguntinhas, que são fundamentais.

Ao conhecer o Lume Teatro, em João Pessoa, você fez alguma oficina com os atores?

Fiz com o Ricardo Puccetti. Foi a primeira pessoa que conheci do Lume. É um ator que eu admiro profundamente. Admiro o grupo como um todo. O que significa Barão Geraldo também, dentro do Brasil. É muito sério esse movimento, mesmo sendo tão espontâneo. É um movimento feito por quem é apaixonado pelo ofício de ator.

Por causa do filme Estômago, muita gente passou a achar que você sabe cozinhar. O que você faz bem na cozinha?

Como (risos).

Quantos longas você fez?

Eu tenho 13 longas no currículo. Cinema, Aspirinas e Urubus foi meu primeiro filme. Depois teve Cidade Baixa (de Sérgio Machado); Eu Me Lembro, do Edgard Navarro; Mutum (de Sandra Kogut); Deserto Feliz (de Paulo Caldas); Estômago (de Marcos Jorge); Jardim das Folhas Sagradas, que não entrou em cartaz ainda, do Pola Ribeiro; Hotel Atlântico, da Suzana Amaral, que também ainda não entrou em cartaz; Se Nada Mais Der Certo (de José Eduardo Belmonte), que ganhou o Festival do Rio (de 2008) e Bonitinha Mas Ordinária, de Moacyr Góes (inédito).

Você tinha 9 anos quando começou a trabalhar como apresentador de um programa de televisão?

Comecei aos 9 anos com uma peça de teatro chamada A Viagem de um Barquinho. Foi aos 10 anos que eu apresentei um programa de televisão, que era dirigido por Nonato Freire, um tropicalista baiano.

Como surgiu a oportunidade?

Eu morava no prédio de uma atriz baiana maravilhosa, chamada Nilda Spencer, que morreu recentemente. Ela era amiga dos meus pais e o Nonato era amigo dela. Ela falou de mim para ele. Eu vivia pelos corredores do prédio vestindo personagens.

Qual era o nome do programa?

Chamava Bombom Show. Durou um ano. Era tão bom que durou pouco. Depois quiseram me contratar para o SBT. Eu não quis.

Você queria seguir no teatro?

Não, naquela época você não tem opinião tão formada. Só sabia que não queria uma coisa muito séria. E no programa eu me divertia muito.

Você entrevistou o Glauber Rocha e a experiência resultou em um episódio engraçado em que você diz a ele “que vai perguntar uma pergunta” e ele que vai lhe “responder uma resposta”.

É, e aí eu disse “Ih rapaz, fiz alguma coisa errada” e ele respondeu, “não, está tudo certo” (risos). Eu não me lembro nada de pergunta alguma. Só não me esqueço da figura dele. Muito forte. Entrevistei também a Irmã Dulce.

Em 2009 você completa 39 anos de idade. São 30 anos de carreira. Que balanço você faz?

Acho que nesses 30 anos teve também muito espaço para perguntas, para o tempo passar e eu nunca deixar de me exercitar. Eu tenho o ofício do teatro como um caminho mesmo, um espaço onde o ator pode existir. Hoje, eu acredito em um cinema humanista e em um teatro que possam trazer à tona questões que tenham a ver com o nosso tempo. Acho que tem uma espécie de coerência na minha caminhada. Tem um amigo meu que diz que você não pode plantar feijão e colher arroz. É muito legal poder dialogar com essa ideia de mercado mas também entender o que você quer dizer e como você pode contribuir.

Você conhece bem o sertão.

Mas eu também sou superurbano. Agora, a tendência é a de eu começar a fazer personagens mais urbanos.

Eu ia perguntar justamente se você não tinha receio de cair no estereótipo do migrante nordestino.

Tive, algum tempo, porque fui muito convidado só para fazer o sertanejo, o nordestino. Acabei de fazer Bonitinha Mas Ordinária, baseado na obra do Nelson Rodrigues, e é um personagem totalmente urbano, do Rio, com a Leandra Leal fazendo Bonitinha. No próprio Se Nada Mais Der Certo, que estará estreando em breve, eu faço um personagem urbano. Acho que no cinema brasileiro há uma tendência de dialogar com uma memória e uma atitude que tenham a ver com esse universo mais urbano, que me pertence também. Estou há seis anos em São Paulo.

Como é sua relação com Salvador?

É uma relação de muito amor. Sou muito agradecido à cidade, que me formou de alguma maneira. É uma cidade de rua, de negros, com uma herança africana muito forte. Uma cidade que tem muita festa de largo. A lógica da rua influencia muito meu trabalho. Sou muito observador. Construo personagens a partir da observação da realidade, de perceber onde que está aquele personagem no meu dia a dia. O cinema me dá oportunidade de viver pequenos exílios de interiores, de poder viajar e conhecer outros lugares que eu não conheceria se não fosse o cinema. De entrar em contato com o Brasil. Eu tenho sede de pensar o Brasil sem levantar bandeira, mas com um sentimento de pertencimento.

Mas você ainda toparia fazer personagens nordestinos?

Não tenho preconceito em relação ao Nordeste ou ao sertão. O problema é a catalogação que os outros fazem. Não vou deixar de fazer filmes com diretores que eu acredito, quando estão falando coisas que eu acredito. Agora eu vou fazer (o filme) A Hora e a Vez de Augusto Matraga (da obra de Guimarães Rosa, sob direção de Vinícius Coimbra), que fala do sertão, mas que é o Brasil e o mundo. Falar do sertão profundo é falar do Brasil.

Você morou dois anos na Paraíba. Por quê?

Fui para lá com o Grupo Piolim. Ficamos na tentativa de construir um novo espetáculo. Mas que foi genial, um período muito bom. Hoje eu escrevo o roteiro de um filme que vou dirigir que se baseou nesse período que fiquei lá. É um projeto de médio prazo. Estou escrevendo o roteiro com a Manoela Dias.

Virou uma tendência atores brasileiros dirigirem longas.

Assim como eu fiz o Bispo de uma maneira bastante autoral (pausa) eu tenho necessidade de dizer algo assim também no cinema.

Você vai relembrar os dois anos em que ficou em João Pessoa?

É uma história específica. Prefiro não contar muito, mas é baseada em coisas que eu vivi lá.

Teve um outro grupo na sua vida, Los Catedráticos.

Um grupo baiano. A gente fazia sátiras das músicas de axé music. Foi o maior sucesso. Eu fiquei um ano e meio no grupo. Tem alguns outros grupos que eu contribui, como o Cia Elétrica Fernando Guerreiro. Teve um grupo de formação que fez parte da minha adolescência, chamado Tantas e Tamanhas, com o qual eu fiz teatro educacional e viajei muito pelo interior.

Você tem projetos para a televisão?

Quase que eu ia fazer uma novela agora. Não rolou porque eu tinha compromisso com (A Hora e a Vez de Augusto) Matraga. Novela não é um veículo que me oponho a dialogar, é importante e popular e, querendo ou não, é um dos poucos veículos que para o ator funciona como indústria. Queria muito que o cinema virasse isso. Minissérie eu fiz várias. Foi o que mais fiz, como participações duas vezes em A Grande Família. É muito bom porque você tem oportunidade de exercitar a troca rápida com os atores e de ver bons atores de televisão em ação.

Quando você vai fazer 39 anos?

No dia 20 de março. Estou estreando uma peça no dia do meu aniversário. Se chama Só. É o segundo monólogo que faço depois de Bispo. Também fiquei muito tempo fazendo Magal, que é meu palhaço, sozinho. Então, acho que eu estou construindo alguma coisa para falar dessa solidão de hoje.

Alguma crise à vista, por estar próximo dos 40?

A crise é constante. Eu sou muito perguntador.

RÓTULO

“Não tenho preconceito em relação ao Nordeste ou ao sertão. O problema é a catalogação que os outros fazem.”

PALCO

“Tive oportunidade de encontrar homens de teatro que são referências, como o grupo Lume.”