Olá! Aqui, você encontra reportagens e entrevistas que fiz para o jornal Correio Popular, de Campinas, onde trabalhei como repórter na editoria de cultura entre 2000 e 2009, e textos produzidos pelo simples prazer de escrever. Boa leitura e comente!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A vida se refaz




Quem vai pelo título se engana. "Uma Vida Entre Três Cachorros" (A Three Dog Life, Editora Planeta, 1ª edição, R$ 29,90, em média), da escritora norte-americana Abigail Thomas, não tem nada do que o título promete. Ainda bem! O que me atraiu ao livro, confesso, foi a bela fotografia que Jennifer May fez de uma senhora sentada em um sofá, entre seus três cães, como se esperassem a tarde passar.

Ao ler a sinopse, compreendi a expressão um tanto melancólica daquela senhora – na verdade, a própria escritora – que é quem aparece na fotografia. Longe de ser um relato sobre a vida com os cães, Abigail registrou suas memórias sobre a vida com o marido, um repórter chamado Rich, antes e depois dele ser atropelado quando corria atrás de um dos cachorros, no final dos anos 90.

Após o acidente, Rich perde a capacidade de reter a memória mais recente, torna-se paranóico e passa a morar permanentemente em clínicas de reabilitação. Apesar da terrível fatalidade, Abigail descobre um tipo de sintonia que está além da razão com o seu marido, a quem conheceu aos 46 anos de idade – ele com dez anos a mais do que ela – após publicar um anúncio na seção de relacionamento de um jornal, e com quem se casou apenas 13 dias depois do primeiro encontro.

Com casa na cidade de Woodstock, em Nova York, mãe de quatro filhos e avó de cinco netos, Abigail segue fiel à rotina de lecionar ficção na New School, escrever seus livros – ela é autora da autobiografia “Safekeeping”, de um romance e duas coletâneas de contos –, e visitar Rich periodicamente na clínica.

Não pense que, pelo resumo acima, “Uma Vida Entre Três Cachorros” é uma história indigesta, pesada. Pelo contrário, apesar da dor que Abigail sofreu e ainda deve sofrer e da saudade do companheiro – com quem estava casada havia 12 anos antes do acidente – a escritora consegue imprimir bom-humor e esperança nas 173 páginas de suas memórias.

Em nenhum momento de suas memórias ela demonstra autocomiseração ou revolta – com exceção do capítulo em que escreve sobre culpa. Ao aceitar a mudança de percurso, ela se dedica a desvendar a mente de pessoas com lesões cerebrais e se torna voraz consumidora de obras da chamada Arte Bruta –, que, como explica a autora em um capítulo dedicado somente a esse tema: “se refere a artistas autodidatas, muito frequentemente são pessoas que se mantêm à margem da sociedade, mas cujas raízes estão na arte do insano; foi inicialmente identificada na Europa no fim do século 19 e depois celebrada na primeira metade do século 20 pelo artista Jean Dubuffet, que a chamou de arte bruta, arte crua”.

Além de novos hobbies e rotina, Abigail aprende a “fazer uso da solidão em abundância para tirar algo de útil da catástrofe”. Observadora atenta do comportamento das pessoas, dos cães e das mudanças na paisagem, ela faz um relato aguçado da própria velhice, de como a mente humana se reorganiza após um trauma, de como tocar a vida com sua família de três cães e de como banir a melancolia por meio de situações e atividades aparentemente banais, mas que dão bastante significado à existência.

“Uma Vida Entre Três Cachorros” foi apontado como um dos melhores lançamentos de 2006 pelos jornais LA Times e Washington Post.

TRECHOS*

“Você precisará de três cachorros, um dos quais detectou o cheiro de alguma coisa interessante saindo pela janela do segundo andar. Ela é um cão de caça. Todos eles são cães de caça, e vocês quatro dormem juntos em uma cama de casal. Quando você abre os olhos (o hálito canino morno dela sobre sua face), ela a está encarando com tal intensidade que você vai morrer de rir. Você veste roupas da véspera (que estão esticadas convenientemente no chão) e encaminha-se escada abaixo sem tropeçar em Rosie, Harry ou Carolina, que estão sempre no meio do caminho. Quando você abre a porta da cozinha, eles voam para o quintal e imediatamente começam a caçar, focinhos rente ao chão, alguma pequena criatura cujo rastro em ziguezague assemelha-se a um eletrocardiograma. Você os segue no gramado verde molhado. Agora você está ao ar livre, e são cinco da manhã.”

“No começo da tarde o sol pode queimar através da névoa, e se você não se maravilhar com isso, não se irrite. De qualquer maneira, está na hora de um cochilo. Do lado de dentro, você pode notar que aquilo que pensou ser pó é, em vez disso, uma camada de pólen dourado que entra pelas janelas abertas. ‘Se pelo menos a vida fosse mais desse jeito’, você vai pensar quando se encaminhar com os cachorros para a cama, e então perceberá com um sobressalto que isso é vida.”

“Além disso, estou bastante bem sozinha. Nem sempre quero responder a uma pergunta sobre por que estou tossindo, se eu estiver tossindo. Gosto de ficar absorvida por Return to a Place Lit By a Glass of Milk sem que me perguntem o que estou lendo. Aprecio não ser interrompida quando não estou pensando em nada. Ninguém espanta meus cachorros para fora do sofá ou impõe restrições aos três, que peidam à noite, com cheiro de sardinha, debaixo das cobertas da cama. Gosto de mudar a mobília ao redor sem ninguém para desejar que eu não o faça ou não notar que eu o fiz. Gosto de cozinhas ou não, arrumar a cama ou não, capinar ou não. Assistir a filmes até as três da manhã sem ninguém reclamar. Sem falar dos cochilos.”

Extraído do livro "Uma Vida Entre Três Cachorros", de Abigail Thomas (Editora Planeta)

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