
O ano é 1962, no Brasil, mas poderia ser hoje e em qualquer lugar. Corpos com claros sinais de tortura, muitas vezes nus e sem qualquer identificação, começam a aparecer, dia após dia, boiando em dois importantes rios da Cidade Maravilhosa. Que risco aquelas pessoas ofereciam? A que grupo elas pertenciam? Ou o que teriam testemunhado que ninguém mais poderia saber?
É bom lembrar que, há 47 anos, estávamos no período da pré-ditadura militar de direita no Brasil, e que a Baía de Guanabara era governada pelo jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), que mantinha no Rio de Janeiro o Serviço de Repressão Mendicância, órgão responsável por regular o fluxo e permanência de mendigos nas ruas da capital fluminense, e que, naquele ano, tratou de cuidar que a cidade ficasse livre de moradores de rua, usando como desculpa a possível visita da rainha da Inglaterra – coisa que aconteceu somente em 1968.
O fato é que a operação desencadeada pelo órgão que deveria repreender a mendicância durante a vinda da monarca ao Brasil entrou para a história como Operação Mata Mendigo, pois a forma encontrada para a “limpeza” das ruas do Rio foi afogar os moradores de rua nos rios Guandu e da Guarda. A aparição dos corpos em curtos intervalos de tempo chamou atenção da imprensa, que começou a investigar o caso e a estampar manchetes acusando o governo de extermínio.
Além das capas de jornal, essa história ganhou os palcos com a peça Topografia de um Desnudo, escrita pelo chileno Jorge Diaz (1930-2007), que foi montada pela primeira vez no Brasil somente em 1985, pela diretora paulistana Teresa Aguiar, com o Grupo Rotunda, sobre tradução de Renata Pallotini.
Este é apenas um prólogo para a crítica ao filme homônimo, que a própria Teresa Aguiar, 14 anos depois de encenar a peça, a muito custo, finalizou. Foram cerca de cinco anos de trabalhos intensos, rodando em Campinas, Paulínia – onde estreou o Pólo Cinematográfico – e Rio de Janeiro, com elenco formado por grandes nomes do teatro e do cinema como Maria Alice Vergueiro, Lima Duarte, Ney Latorraca e José de Abreu, e um elenco de apoio que ela ajudou a formar em oficinas de cinema realizadas em Campinas, além de revelações maravilhosas como a atriz Ariane Porto, que protagoniza a história e ainda se dividiu no roteiro e na produção do longa.
Com proposta ousada, que mistura as linguagens do documentário e da ficção, e técnicas como o Super-8 e a câmera digital, Teresa Aguiar realizou uma obra de arte sobre uma história indigesta: a matança de dezenas de mendigos no começo dos anos 60, consentida pelo Governo da Baía da Guanabara.
No ano seguinte ao aniversário de seis décadas da Declaração Universal dos Direitos Humanos – pouco lembrado no ano passado -, Teresa Aguiar, aos 74 anos de idade, insiste em jogar esse problema de volta no nosso colo, estejamos sentados nas poltronas do teatro – em 2008, ela voltou a encenar a peça de Jorge Diaz - ou do cinema, a fim de nos alertar sobre a morte de moradores de rua nas grandes cidades, seja ela provocada por grupos de extermínio, jovens inconsequentes ou pela falta de políticas públicas.
Neste que é seu primeiro longa-metragem adulto de ficção, Teresa juntou à história romanceada por Jorge Diaz depoimentos recentes de jornalistas que testemunharam e noticiaram o extermínio de mendigos no Rio. Às imagens fictícias, ela misturou flashes dos corpos desnudos, em fotos em preto-e-branco pinçadas dos arquivos da imprensa fluminense.
A trama se passa em dois planos: na consciência do mendigo Russo (Lima Duarte) e da jornalista Bel (Ariane Porto), que são os narradores; e na realidade. Em um lixão da cidade, perto de um dos rios onde os corpos começam a aparecer, um grupo de mendigos aparentemente organizados, que sobrevive catando sobras de comida e reciclando lixo. O Serviço de Repressão à Mendicância (representado aqui por Ney Latorraca e José de Abreu) detecta ali que pode ser um núcleo comunista, representado por Russo – apelido muito suspeito para a época – único mendigo alfabetizado do local.
Quando os corpos começam a aparecer, uma colunista social de um importante periódico do Rio se sensibiliza com o caso e solta uma nota de repúdio à violência, o que causa um incidente “diplomático” entre o governo e a direção do jornal. De um extremo ao outro da pirâmide social, tanto Russo quanto Bel passam a ter os passos seguidos por funcionários do governo.
A roteirista Ariane Porto pouco mexeu na história original, contada de maneira bem encadeada, sem perder o ritmo – tanto que é um filme curto para os padrões atuais: tem cerca de uma hora e meia de duração. A mão da diretora Teresa Aguiar aparece com força na forma com que filma e na direção dos atores, que brilham em cena, em atuações surpreendentes – com destaque para Maria Alice Vergueiro, que faz uma divertida cafetina que mora no lixão.
Esta não parece ser a estreia da diretora em um longa adulto. Teresa tem estilo. Ela utiliza uma paleta de cores em cada plano em que se passa a história e elementos surrealistas para diferir as dimensões em que as personagens aparecem. O recurso intercala momentos poéticos em meio à densidade da trama.
O Rio de Janeiro filmado por Teresa também foge dos clichês. Interessante observar que a câmera Super-8, quando percorre a Avenida Atlântica a bordo do carro das personagens, na orla de Copacabana, nunca se volta para o mar. Prefere mirar as fachadas chiques dos edifícios à beira-mar, fazendo o contraponto com os barracos dos mendigos no lixão.
Destaque também para a pesquisa histórica e a direção de arte, que fez um belo trabalho de reconstrução da época, por meio de figurino, móveis, objetos e automóveis; além da fotografia de Carlos Ebert – de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla – e trilha sonora.
Definitivamente, Topografia de um Desnudo é um filme que incomoda e surgiu com esse objetivo. Com certeza, não deverá estrelar nos complexos de cinema, nem será assistido por quem vê um filme apenas como entretenimento, mas falará fundo àqueles que se interessam pela história recente do País e às organizações e instituições que lutam pela dignidade das pessoas em situação de rua.
